Opinião

O valor da proximidade

27 jul 2021 15:45

Cada bairro de Barcelona tem o seu mercado completamente funcional - em alguns locais mais que um - e mercados de agricultores são também regulares e dispersos geograficamente

Inspirado por um consumo exacerbado de magníficos e suculentos pêssegos estivais, deixem-me que vos aborreça com considerações sobre coisas da minha vida que provavelmente vos interessarão pouco, mas que, se calhar, até deveriam importar.

Entre as muitas mudanças pessoais dos últimos dois anos e picos, há uma que, apesar de bastante inconsciente no início, se tornou consciente e constante no nosso dia a dia doméstico em Barcelona: o consumo de produtos de proximidade.

Das compras avulsas em mercados de agricultores durante uma viagem por meia Espanha no Verão de 2019, às compras semanais no mesmo tipo de comércio em plena metrópole catalã foi somente uma questão de aproveitar a oportunidade e efectivar a mudança.

Com essa decisão, a nossa rotina de consumo foi-se simplificando e começámos também a perceber que estávamos a contribuir para algo mais que “apenas” o nosso bem-estar.

Aos sábados vamos ao mercado (à praça, entenda-se) a cinco minutos de casa, onde temos já os nossos “dealers” de bifes e hambúrgueres, frango, peixe e queijos, embutidos e cebolas e batatas e que só fecha aos domingos.

A fruta, os vegetais e algum pão aviamos de 15 em 15 dias num Mercat de Pagés organizado por uma associação do bairro.

Não gastamos mais que antes, vamos às compras menos vezes, desperdiçamos incomensuravelmente menos, produzimos menos lixo, sabemos de onde vem praticamente tudo o que comemos e bebemos, contribuímos directamente para a dinamização de pequenos negócios.

Obviamente que o conseguimos fazer porque a cidade o permite. Cada bairro de Barcelona tem o seu mercado completamente funcional - em alguns locais mais que um - e mercados de agricultores são também regulares e dispersos geograficamente.

Não me lembro sequer da última vez que comprámos numa grande superfície.

Ao supermercado vamos no máximo três ou quatro vezes por mês e sempre para produtos não alimentares ou coisa muito concretas… tipo manteiga com sal, porque, vejam lá bem, manteiga com sal é coisa que à rapaziada deste lado da Península não assiste e… bom, como é que se pode viver sem ela?

Resumindo, por paradoxal que pareça, acredito que é provável que seja mais difícil assumir estas rotinas em Leiria do que em Barcelona e isso, ainda que vos possa interessar pouco, talvez vos devesse preocupar um bocadinho.

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