Opinião

O procrastinador

8 mar 2018 00:00

Não se precipite o juízo sobre a criatura. Não é, de todo, um viciado no trabalho. Nada o compara àqueles sujeitos que fazem da profissão a coisa primeira e sobreposta à relação amorosa ou aos filhos.

É certo que sempre fora muito ativo. Cheio de vida, diziam dele quando era ainda um gaiato e obrigava a atenções adultas para as traquinices que fazia. Nunca está bem em lado nenhum, quando os arroubos da adolescência lhe davam uma vontade imensa de sair para além dos limites impostos pelas obrigações que lhe impunham.

Não sabe o que quer, na juventude, quando a vida lhe parecia desacertada e cheia de injustiças que presumia poder corrigir por ímpetos ditados pela emoção. Um insatisfeito, chamam-lhe agora, homem feito, sempre de um lado para o outro, sem pachorra para conversas redondas que não concluem nada e falta de paciência para o arrastamento com que alguns cumprem tarefas fáceis.

Cordato, contudo. Sempre pronto a entender o ponto de vista do outro, experiente que muitos sabem fazer, alguns pensar sobre as coisas e uns poucos capazes de entender a ordem e o lugar que cabe a cada pensamento.

Talvez por isso, mas decerto não só por isso, passa a vida a inventar coisas para fazer, tarefas mil, amanhãs por cumprir. Afinal, diz ele, alguém tem que pôr as coisas a mexer e para isso nada melhor que inquietar-se uma pessoa por dentro.

Inquieto, seria melhor que lhe chamassem, pela sua azáfama constante. Não se precipite o juízo sobre a criatura. Não é, de todo, um viciado no trabalho. Nada o compara àqueles sujeitos que fazem da profissão a coisa primeira e sobreposta à relação amorosa ou aos filhos.

Abone-se em favor do carácter do homem que não hesita em reclamar o seu direito a fazer nada. E fazer nada será mesmo o seu maior anseio, que quando para isso há oportunidade as ideias lhe parecem fluir melhor. Nisso será igual aos demais, pelo menos assim se pensa pensarem os homens que descobriram a filosofia e outras artes de olhar o homem e a vida.

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