Opinião

O Fogo desnuda

18 jun 2017 00:00
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Fernando Ribeiro, músico

Chegou o tempo das nossas palavras e pensamentos se encherem de revolta pelo que aconteceu. Os nosso dedos agitam-se, apontam. As nossas mentes perscrutam respostas que não temos, nem nos vão dar.

Tudo é inquietude. No meio de uma suas maiores euforias e picos de auto-estima, Portugal falhou no que é mais básico: proteger as vidas dos seus cidadãos.

Tivemos meses de pão e circo. Ganhámos tudo o que interessava e o que nem por isso. Construimos uma Lisboa e um Porto modernos a pensar nos turistas. Fizemos um Portugal superficial de obras e ciclovias e fomo-nos esquecendo do Portugal profundo, das estradas nacionais, dos campos, das pequenas cidades e dos pequenos paraísos que eles oferecem na fuga necessária à Babilónia urbana.

A  estação do fogo começou, mais cruel que nunca. Contam-se os mortos, tratam-se os vivos e renascerá aos poucos, no espirito solidário, aquele Portugal que às vezes esquecemos que é mais nosso do que o Portugal que nos pintam de dourado.

Quem morreu aqui foram Portugueses de verdade. Portugueses que apesar das retomas, continuam a trabalhar que nem cães para que, entre outras coisas, possam dar um mergulho de rio, comer um gelado numa praia fluvial, ir ao baile dançar e comer uma fartura. Quem queima são os planos dos nossos emigrantes, o sorriso do regresso que desmaia perante as chamas; queimam as casas pagas com suor, queimam as hortas que servem as comunidades, queimam os sonhos de uma vida a poupar.

Falar de política agora é o mesmo que falar do Diabo que andou à solta. Ultrapassa o bom-senso, a imaginação, os limites da irresponsabilidade verificar que  tudo continua  mais ou menos na mesma num país que todos os anos arde. Um país Europeu, que enterra dinheiro em encontros  mundiais de starts ups mas no qual morrem sessenta pessoas num fogo.

António Costa: o seu sorriso e a sua compostura não chegam. Melhor seria remontar aos seus tempos de Ministro da Administração e rever os planos concretos que lhe passaram pela secretária de gente valorosa que queria e sabia como minimizar ou ajudar a controlar o problema.

Sr.Presidente da República: o Sr. consola como ninguém e é provavelmente a pessoa mais completa e inteligente que assumiu a Presidência desde há muito. Nas suas viagens, nas suas leituras, vá até à Finlândia, até à Suécia (que também são agora reféns de alterações climatéricas bem diferentes do que era no passado), e observe- leve uma equipa da Protecção Civil - como a protecção florestal funciona, como há caminhos e áreas que permitem o combate às chamas, e, em particular como o território se organiza e se limpa.

Palavras, não nos faltam. A nenhum de nós. A nossa dor não tem medida mas será a nossa impotência passível de quantificar? Portugal está nu. Incrédulo. Chocado. Mas também à espera que desta vez a culpa não morra solteira. Que se faça mesmo alguma coisa.

Que tudo não seja outra vez em vão e que em especial quando se governa, se governe para todos: para os que alegremente percorrem ciclovias por entre as zonas nobres das cidades mas também para aqueles que tristemente perderam as suas vidas nas estradas nacionais, percorridas de fio a pavio por tantos que nunca mais se sentirão seguros entre as árvores que lhes davam sombra e lazer, perante a natureza que o homem maltrata e que o fogo cruelmente desnuda. 

*Músico e vocalista dos Moonspell