Opinião
O fim da ordem moral: de Gaza à terceira guerra
Neste cenário de erosão do direito internacional, assistimos a derivas que deveriam fazer estremecer a memória europeia
O mundo assiste, impavidamente, à montagem das peças para um grande conflito global.
Quando a diplomacia cede ao rearmamento cego, a Terceira Guerra Mundial deixa de ser uma hipótese para se tornar uma inevitabilidade.
Os sinais cobrem o globo: a Ucrânia arrasta a Europa para o militarismo; em Gaza, a barbárie e o esmagamento das normas humanitárias deixam clara a cumplicidade ocidental; no Mar do Sul da China, rota de 30% do comércio marítimo global, desenha-se o choque entre superpotências; e em África, o abandono internacional alimenta instabilidades sistémicas.
Neste cenário de erosão do direito internacional, assistimos a derivas que deveriam fazer estremecer a memória europeia.
O anunciado fundo de 100 mil milhões de euros para a remilitarização da Alemanha é a prova da nossa amnésia histórica.
Normalizar o rearmamento da Alemanha é ignorar as lições mais dolorosas do século XX, substituindo a construção da paz pela corrida aos armamentos.
No Médio Oriente, a impunidade agravou a tragédia.
Os mais de 40 mil mortos e 1,9 milhões de deslocados na Faixa de Gaza representam um atropelo sem precedentes ao direito humanitário.
Em simultâneo, a retórica militarista de Donald Trump em relação ao Irão fez "explodir" uma região no caos.
Trump encarna a recusa da elite americana em aceitar o óbvio: a hegemonia absoluta dos EUA acabou.
Na sua incapacidade de digerir a transição inevitável para um mundo multipolar, onde o bloco BRICS já ultrapassa o G7 ao representar 37% do PIB global, a Administração Trump prefere a ruptura e o conflito a uma adaptação pragmática à nova ordem geopolítica.
A História ensina que os impérios em declínio são os mais perigosos.
Ao tentar travar a emergência de novos polos de poder pela força, as elites ocidentais arrastam o planeta para uma dinâmica de blocos que lembra assustadoramente a véspera do primeiro grande confronto armado.
Esta marcha para o abismo resulta de uma profunda falência ética e política.
Enquanto cidadãos, não podemos aceitar a normalização da barbárie nem o regresso à lei do mais forte.
Travar a militarização da Europa, exigir o fim do massacre em Gaza e rejeitar o populismo de quem prefere a guerra à perda do domínio global são imperativos éticos de sobrevivência coletiva.
Antes que seja tarde demais.