Opinião

O Beco da Liberdade, de Álvaro Laborinho Lúcio

14 dez 2019 20:00

É o terceiro romance do juiz–conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça, natural aqui da Nazaré.

Depois de O Chamador (2014) e de O Homem que Escrevia Azulejos (2016), saiu, em setembro, O Beco da Liberdade, que foca o tema da Justiça e da (pouca) liberdade de a exercer.

Esta é a história de um juiz de província acusado de aplicar duas sentenças brandas o que lhe traz alguns problemas. A ação passa-se numa qualquer pequena cidade ou vila de Trás-os-Montes e desenvolve-se em dois tempos diferentes: o primeiro decorre no tempo em que «Salazar morrera havia seis meses» enquanto o segundo data do ano de 2015.

Estas duas realidades – tempo e espaço – determinam muito dos comportamentos, da visão das personagens e até da linguagem utilizada pelo escritor que, parece-me, pretendeu escrever uma história na senda do contorno literário de Agustina.

Dividido em duas partes e contendo um prólogo e um epílogo, não se trata de um romance de fácil leitura. Primeiro porque faz o leitor andar perdido na narrativa com a entrada de personagens díspares: em 2015, um Mário que almoça com uns amigos, um dos quais será o narrador, a quem aquele sugere que escreva um romance baseado numa história que Floriano, jornalista, tem guardada há cinquenta anos.

Após a apresentação do juiz, filho de uma tradicional família transmontana, nos idos de 70, aparece-nos uma menina Maria Cacilda com poderes de adivinhação por leitura dos ventos maus. E, no capítulo seguinte, lá vêm o tal Mário e o talvez narrador/escritor da história de há 50 anos, os quais voltam a aparecer apenas no epílogo.

A intriga desenvolve-se por toda a primeira parte, em pequenos avanços e recuos no tempo, fazendo o leitor conhecer o(s) drama(s) do juiz – homem, por de mais mulherengo, muito marcado pela dominação do pai que até lhe impõe o casamento com Maria da Graça, menina de família, rica, «mais velha do que ele e desprovida de beleza que a fizesse notada».

Tudo roda em torno do homicídio do marido de Maria Cacilda praticado pelo marido de Maria Emília, empregada do juiz, ao qual este, depois de aturada investigação pela mão de Gervásio Ventura, subinspetor da PJ, aplica uma pena demasiado branda que ninguém entende.

Sobre o caso, o jornalista Floriano Antunes escreve uma notícia que é censurada pelo regime.

Para fazer face à possível desorientação inicial por parte do leitor, vem a segunda parte, passada na atualidade, dar resposta a todas as interrogações e pontas soltas deixadas na primeira parte.

E isso acontece a partir das longas conversas que o agora velho juiz mantém com o jornalista, sobre aquela notícia, e com a também velha governanta Narcisa, criada naquela família desde sempre e da qual conhece todos os segredos.

As razões sucedem-se de forma algo forçada, como forçado e artificial parece ser o final da narrativa. A ler, porém, pela reflexão sobre o ato de julgar.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

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