Opinião

Nas suas Casas os Homens

8 jul 2021 15:58

A subjectividade e o índice de humanidade são antídotos. E conferem a tão ambicionada imunidade de grupo, por via de uma compassiva subjectivação.

Numa altura em que tanto se fala na imunidade de grupo, convido-vos a entrar na minha casa. Esse lugar que habito e onde moram os meus poemas e a minha divergente inconformação com o mundo.

Convoco-vos para que ao meu lado, possam perscrutar o que vai para além deste universo em que residimos, ainda absortos numa estrídula distopia.

Nos primeiros meses de 2020, em que forçosamente nos encerrámos em casa num estado neurotípico de aturdimento, ousei escrever os poemas que fui partilhando com o artista Pedro André, que prontamente, lhes deu vida.

Através de imagens desenhadas a tinta-da-china, criando jogos de contraste entre luz e sombra, narrativas paralelas, estilizadas e expressivas, numa alteridade circunscrita às formas, foi traçando acções latentes que nos projectam num futuro incerto ou nas ruínas de um passado.

De imediato, um outro artista e músico - João Faria, aglutinou estas duas linguagens (poesia e desenho) e em tempo record, compôs em disco no Bandcamp um álbum que traduz este universo, ora distópico, ora esperançoso, criando tonalidades ambientais que jamais imaginaria serem provenientes dos meus vocábulos.

Dessa interlocução dos versos, desenhos e narrativas sonoras, surge uma atmosfera que silencia o labor de cada um de nós, recolhidos nos nossos habitáculos, encarando o espaço individual como um local de criação e fruição – mas também de claustrofobia e aprisionamento. Esta dicotomia e paradoxo que experienciámos é a metáfora para a edificação deste projeto.

Um dos aliciantes reside precisamente aí: na necessidade de atribuir forma e sentido a uma nova atmosfera caótica, por via de um desígnio não-descartável, acrescentando camadas à combinação original de três linguagens em interconexões sincréticas, desenvolvidas de modo a permitir rever o passado, sentir o presente e transverter o futuro com um carácter revitalizador.

Convido-vos a fruir desta espécie de amparo em silêncio, já que o ruído é mais do que uma ameaça à racionalidade. Será porventura utópica esta sugestão. Mas hoje, mais do que nunca, é imperioso procurar sedativos que anulem a dormência da mente e os dilemas com que nos confrontamos no ruído dos tempos.

A subjectividade e o índice de humanidade são antídotos. E conferem a tão ambicionada imunidade de grupo, por via de uma compassiva subjectivação.

Existir é fruir da vida em comunhão com os outros que também nos habitam. Por isso é tão necessário que entremos nas casas uns dos outros, cada vez mais.

Aquilo que magistralmente o filósofo José Gil designa de «gestos-barreira» - máscaras, distanciamentos, “punho-contra-punho” em detrimento de aperto de mão ou de um abraço, apagam-nos os sentidos, submetendo-nos ao medo inconsciente e ao desvario sem rumo. Dou-vos a chave da minha casa. Ousem nela entrar.

Aqui estamos: eu, o Pedro e o João, de braços abertos para vos receber: Galeria Manuel Artur Santos – Centro Cultural Mercado de Sant’Ana (Exposição até 24 de Julho de 2021) e https://joaofaria.bandcamp.com/album/nas-suascasas- os-homens.

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