Opinião

Música | O que prevaleceu foi a mística por detrás daquele espaço

28 dez 2019 20:00

Michael Price é mais um daqueles compositores bem discretos mas verdadeiramente influentes no actual e entusiasmante desvario criativo que todos temos vindo a testemunhar, não obstante já ter sido premiado com um Emmy e nomeado para um BAFTA.

Conheci o britânico Price por este ser o curador, a par de Samuel Ziajka, da vibrante comunidade digital com o nome bem sugestivo Contemplative classical e que promove podcasts, playlists em permanente actualização e entrevistas com os mais variados autores.

Bem conhecida é também a sua aproximação à incontornável editora londrina Erased Tapes Records, com quem lançou o largamente elogiado Entanglement, em 2015, e, já em 2018, a sua segunda colaboração - de nome Tender Symmetry, álbum que gostaria que agora escutassem.

Price procurou inspiração em vários locais espalhados por Inglaterra, onde pudesse gravar os sete temas a que se propôs, não querendo recorrer ao tradicional e, até certo ponto, reconhecível ambiente próprio de um estúdio de gravação.

A premissa não é original mas o resultado é nada menos que deslumbrante e mostra-nos a importância que as vicissitudes de espaço efectivamente têm na sonoridade das obras.

Esta viagem criativa pelos mais diversos lugares, todos eles protegidos pela National Trust (entidade fundada em 1895 que os cuida e preserva), tomou conta do próprio processo de composição, sendo que Price procurou trazer para este as histórias por detrás dos lugares, numa longa viagem de contemplação e também de investigação que durou cerca de dois anos.

Pense-se, por exemplo, na aparente relutância de Peter Gregson, conceituado violoncelista que participou neste projecto, em gravar num abrigo feito de uma série de túneis durante a Segunda Guerra Mundial (em Fan Bay) por não estar habituado a escutar o seu instrumento naquela acústica tão peculiar e aparentemente nada lisonjeadora do som de um violoncelo e, no entanto, o que prevaleceu foi a mística por detrás daquele espaço onde jovens soldados conviveram e esperaram meses sem fim por possíveis bombardeamentos, suficiente para que se transcendesse a confortável e normal expectativa sonora que se tem e se atribuísse todo um novo significado poético-musical àquela interpretação.

Além deste músico, participaram neste álbum outros como Grace Davidson (soprano que deu a maravilhosa voz ao álbum Sleep, de Max Richter), Shards (coro presente no All Melody, do Nils Frahm), e os experimentalistas Immix Ensemble e os Manchester Collective.

Tender Symmetry carrega em si a verdadeira impressão digital sónica dos espaços por onde passou e nele traz todo um legado histórico e emotivo que metaforicamente foi transmutado num compêndio de peças musicais bem actuais, desencantadas maravilhosamente por Michael Price.

Boas festas a todos!

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