Opinião

Música | Madalenas

1 mar 2020 20:00

Para pessoas de uma certa idade, o nome Isobel Campbell será sempre associado aos Belle and Sebastian, a banda escocesa de que a cantora fez parte até 2002.

Embora a banda tenha prosseguido o seu trabalho até aos dias de hoje, nalguns momentos com resultados brilhantes, a saída de Campbell marca uma cisão irreparável para uma geração de pessoas que gostam de música.

A carreira a solo da cantora acabou por não ter o relevo que se lhe antevia e nem mesmo a parceria com Mark Lanegan, da qual resultaram três discos, a distanciou daquela relação inicial com a qual toda a sua produção acaba por ser, inevitavelmente, comparada.

Mais uma vez, o novo disco da cantora, There Is No Other…, exige que se retome a comparação. Se a parceria com Lanegan esteve sempre desligada do que a tornava única enquanto membro daquela banda, a solo nunca manifestou pudor em recuperar ao seu passado.

No entanto, seria injusto para o trabalho de Campbell descrevê-la como parasita de glórias passadas. Pelo contrário, a sua qualidade como compositora está bem patente na maneira como modela os refrões de City of Angels e de Ant Life, ou na forma como sustém Just for Today e Below Zero com apenas meia-dúzia de versos — um exercício que leva ao extremo em See Your Face Again, uma canção de dois minutos que tem apenas apenas dois versos.

Nessa canção, a sua qualidade manifesta-se quando num dos versos muda um artigo indefinido para um possessivo, transformando uma fragilidade num momento de força sem que a música reflicta qualquer variação: não é apenas um lugar que ela procura, é o seu lugar.

Mesmo nos momentos mais fracos da sua escrita, como The Heart of it All, evidencia-se a sua sensibilidade para a estrutura da canção, com as segundas vozes a funcionarem como instrumento para suster o refrão e como parte integrante do sentido da canção ao alongarem a sua presença para lá do refrão: “juntos aguentaremos, divididos falharemos.”

Ben Cardew, na sua recensão ao disco, terá invocado a melhor imagem ao resgatar a analogia proustiana da madalena para descrever as nuances vocais que nos recordam os Belle and Sebastian; mas com Campbell a solo, como com madalenas em geral, nunca recuperamos com rigor as impressões de que nos recordamos.

É revelador do tipo de pessoa que somos que, mesmo sabendo não haver madalenas como as que comprávamos na mercearia ao lado da casa onde crescemos, continuemos a consumi-las na esperança de recuperar o passado; talvez essa seja, afinal, uma explicação plausível para justificar que a produção de queques subsista.

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