Opinião

Lucifer versus Adamastor

29 Aug 2017 10:15
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Fernando Ribeiro*

Eu sei que ainda agora cheguei ao Oeste.

Ainda não fui a todos os saloons, ainda não provei todas as especialidades, ainda não sei quem são os bandidos e quem são os cowboys. Nem sequer ainda aproveitei toda a beleza natural, a cultura sobre a qual chovem críticas, mas que vai acontecendo. Ainda estou a instalar-me.

Em todo o caso, já andei nos carrosséis da Feira de São Bernardo, já brinquei com o meu miúdo no “parque do avião”, já almocei muitas vezes no Chico Lobo, já gastei, com um largo sorriso, algumas economias na Arquivo (onde “assinei contrato” com este jornal) e o que mais?… o meu sócio é um homem de Leiria e, apesar dos avisos em contrário, gosto mesmo de Leiria e sinto que apesar de gostar tanto de morar em Alcobaça, muito do meu futuro passa por Leiria.

Dá para ver que vivo o entusiasmo de quem se mudou recentemente. Uma certa descontração, motivada pelos desconhecimento do que se passa, de quem intriga, de quem polui o ar. Hei-de descobrir o amargo destas terras, mas será ele suficiente para quebrar o encantamento? Eu, como homem que acredita que somos nós quem tudo decide, penso que não.

Uma coisa que nunca fiz, para mal de todos os meus pecados, foi ir ver concertos ao Entremuralhas. Já lá estive para uma conferência, e, com pesar, depois dela meti-me no carro e fui dar um concerto. Depois, em todas as edições, acreditem ou não, estava fora a tocar. Perdi Laibach, perdi FLA, perdi And Also The Trees, perdi Lebanon Hannover. Perdi Paulo Bragança.

Reparem, só me refiro à música porque este é um festival de experiências, e já o é há muito tempo, antes de os ratinhos do marketing descobrirem o que era isso da música a vender emoções. 

A minha história com o Carlos Matos e com a Fade In, começa há muitos anos na loja Alquimia. Éramos novos e fazíamos coisas, muitas coisas. Eu vendia-lhe CD e t-shirts de Moonspell. Ele comprava, vestia Leiria com elas, divulgava o nosso som e pagava tudo a tempo e a horas.

Aliás, muito gente quando fala do underground, omite o seu principal princípio: a honestidade. E o Carlos sempre falou e escreveu assim. Dentro dos seus primeiros passos (e dos meus) adivinhava-se um homem resolvido, i.e., que faz e que sabe como fazer e que continuará a fazer, por muita areia que lhe deitem para os olhos.

Uma vez até lhe dei uma medalha! Foi no José Lúcio da Silva e convidaram-me a mim para fazer essa entrega. Eu nem cá morava, mas vim de Lisboa (um tirinho) de propósito porque apesar das medalhas valerem o que valem, caramba aqui estava uma autarquia a reconhecer mérito cultural a um alternativo, a um gótico, a um dos nossos. Não podia faltar!

A primeira pessoa em quem pensei para cantar neste disco novo dos Moonspell (1755) foi o Paulo Bragança. Não queria outra voz, outro fadista, outro cantor. Era ele ou ninguém.

Não foi fácil de o encontrar mas o destino resolveu e lá fizemos o nosso tema. Não ficámos por aí. Tornámo-nos amigos de verdade. Ele partilhou comigo a sua história, a sua nova música, o seu renascer de cinzas que nós nem sequer conseguimos imaginar. Na falta dessa experiência, brincamos aos pobrezinhos nas redes sociais.

De entre as inúmeras coisas que falámos, o Entremuralhas. Eu disse "tens de ir". A ver se ligo ao Carlos. Não foi preciso. Ele foi e como todo o verdadeiro artista provou, de certeza, no palco o valor desse seu sonho. Não estive lá, fazia anos (!) e a minha família organizou-me uma grande festa. No entanto, não foi preciso estar lá. Estava o Entremuralhas e o Carlos e a Fade In, em boas mãos e vice-versa. Em boas mãos. Em boas mentes.

Fui ver a reacção online. Grande como eles! Apesar de tudo: das sugestões, das negas, da pura ignorância do que é o Fado do Paulo, um fado gótico, dark, luciferino, que encanta, mas pode e deve assustar as mentes incautas. Tanto os que percebem “demais” de música como as que sentam perante a televisão a telefonar para o Portugal em festa ou lá o que é, isso sim, mostra o pior das nossas terras.

A minha pergunta:

Acham mesmo que o Carlos não o iria levar ao Entremuralhas

Como em muitas coisas, o Carlos é o primeiro desta história que não acaba aqui. Vão ver o Paulo em muitos ambientes destes, garanto-vos eu.

Variações dizia que todos nós temos Amália na voz. Eu diria, se me permitem, todos nós temos Adamastor no peito. Sopramos contra quem navega e descobre, contra os aventureiros. Mas não passamos de imaginação, de contacto indirecto, de uma ilusão criada pelo medo e pelo facto de sabermos o que não gostamos, mas nada fazer acerca disso.

Tanto Lucifer como Adamastor são criaturas da nossa mente, cravadas na nossa cultura pela superstição e pelo mito. São exemplos metafóricos de sensações reais, psicossomáticas, como o medo, a vergonha, a inveja. O Paulo e o Carlos são como os guardas das cidades medievais a passar com uma lanterna, velando por nós, apontando um caminho diferente, mas tão luminoso que faz com que milhares os sigam e, poucos outros, se encandeiem com a invenção do fogo. 

*músico e vocalista de Moonspell