Opinião

Literatura | Gramática da Fantasia

19 nov 2020 16:06

Nos últimos tempos têm ecoado em mim vários discursos centrados na hospitalidade, na gentileza e no respeito pelo outro, pelo ambiente e pela busca pelo bem comum

Reflito nas palavras sábias do Cardeal Tolentino Mendonça, na encíclica “Fratelli Tutti “, do Papa Francisco, ou em livros, filmes, performances, que tenho visto recentemente e que talvez por sentir premente nos tempos que vivemos esta urgência da gentileza do indivíduo, para consigo, com o outro e para com esta casa que se chama planeta terra, casa de todos nós.

Há muito que defendo o poder transformador das artes na chamada de atenção para problemas sociais, desigualdades, pelo seu olhar crítico, perspectiva fraturante e disruptiva, mas simultaneamente fulcral na união comum a uma causa. Aconteceu recentemente um projeto dinamizado pela Junta de Freguesia de Marrazes e Barosa, que envolveu artistas, agentes culturais, figuras públicas, ou cidadãos anónimos na reflexão em torno da violência doméstica, em particular sobre as mulheres.

Liderado por Catarina Dias, mulher, mãe, profissional dedicada e ativista pelos direitos humanos ( e das mulheres), o projeto 54’ englobou workshops e acções de sensibilização em escolas e na comunidade e um conjunto de vídeos com a duração de apenas 54 segundos, ( remetendo simbolicamente para 54 minutos , o tempo que em média cada mulher tem para si diariamente), nas mais diversas linguagens e estéticas, de acordo com a proveniência de cada envolvido.

Este, como outros projetos artísticos em torno da violência contra as mulheres põe o dedo na ferida, e está de parabéns. Sinceramente acredito haver poucas mulheres que tenham para si os tais 54 minutos diários a menos que não durmam…e é pena.

Durante o primeiro confinamento saiu um estudo alertando que estudos académicos desenvolvidos por mulheres tinham descido drasticamente, não havendo diferença no que aos homens diz respeito. Há ainda um fosso enorme entre a igualdade de tarefas e de oportunidades na sociedade em que vivemos quando pesamos na balança homens e mulheres, e estou certa que esta não aconteça só nas classes sociais mais frágeis, pois sobejas vezes há ainda a vergonha, medo e desconforto de assumir esse desrespeito publicamente…

Volto à gentileza, ao respeito e à hospitalidade e trago-os para dentro das nossas casas, entendidas como as nossas instituições, as nossas escolas, os nossos empregos, os nossos projetos e claro das nossas CASAS, lar onde vivemos e onde o respeito e a partilha deveriam ser uma constante.

E como esta reflexão deveria ser sobre livros, deixo-vos como sugestão de leitura e de trabalho se quiserem desenvolver algo com alunos ou em projetos : Maruxa da Eva Mejuto, OQO, Mar de Afonso Cruz, Alfaguara Portugal, Margarida Espantada; Pianista de Hotel ou Jogos de Raiva do Rodrigo Guedes de Carvalho, ou o Livro dos Porquinhos de Anthony Browne, Kalandraka, cuja capa deixo abaixo, para contemplação.

Para que nesta lógica de hospitalidade e gentileza possamos convergir para aliviar o peso carregado pelas mães e mulheres que levam a família às costas e que nestes tempos inusitados em que vivemos, carregam consigo uma angústia e responsabilidade ainda maior. Boa semana a todos!

PS: se tiverem outras sugestões de livros sobre este tema escrevam-me por favor.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

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