Opinião

Literatura | A Torre da Barbela ou da ironia fina

26 jun 2020 20:00

Completaram-se, no passado dia 26, cem anos sobre o nascimento de Ruben A., escritor pouco conhecido e muito pouco lido.

Ruben Alfredo Andresen Leitão, primo de Sophia de Mello Breyner, além de romancista foi historiador, ensaísta e crítico. 

Homem profundamente vivido e culto, cria uma prosa assaz original, «de uma criatividade inconformista.» - diz G. Oliveira Martins – que dificilmente se ajusta a uma qualquer corrente literária. 

Uma escrita é complexa, mas rica, movendo-se entre o histórico, o surrealista, o maravilhoso alegórico – ou o absurdo, como diz o próprio autor. Exemplo disto é o seu romance A Torre da Barbela, publicado em 1964 e que, na opinião de Eduardo Lourenço (seu colega de Faculdade), «é a mais profunda autognose pátria que conheço, nós todos em “melhor-e-pior” ao mesmo tempo.»

A Torre, monumento nacional, a única Torre triangular da Península, situa-se em Serzedelo, frente à Serra de Arga, junto ao rio Lima e de lá avista-se o monte de Santa Luzia e a vila de Viana.


O espaço, maravilhosamente descrito por quem muito amou as terras do Minho, mantem-se o mesmo ao longo da obra. Já o tempo… derrama-se, sem que demos conta, ao longo dos oito séculos da nossa História – diz-nos o atual caseiro-cicerone que recebe os turistas que visitam a Torre.

«Perdia-se de vista na História». Sobre os Barbelas fala que o primeiro foi Dom Raymundo, primo colateral de Dom Afonso Henriques, a quem ajudara nas suas conquistas. E, na sua lengalenga de apresentação do espaço, vai dizendo que durante a noite os Barbelas passeavam por ali a cavalo, coisa que «só podia pressentir quem tivesse uma “segunda” visão».

Com efeito, ao longo dos oito capítulos seguintes, passam pelos olhos do leitor todos os primos Barbela, pertencentes a várias gerações, que, com o cair da noite, saem dos seus jazigos e vivem uma vida quase real de festas, danças, banquetes, amores, intrigas e invejas.

Cada um deles está ligado a uma qualquer época ou feito da nossa História e assim se vai registando o aspeto histórico da obra dentro de um ambiente sobrenatural, maravilhoso que nos é dado pela animada vida que os mortos vivem durante as noites.

Constante é a fina crítica aos comportamentos tacanhos e moles dos portugueses como o Amor também ele sempre presente – num romance é obrigatório.

Desenrola-se entre o Cavaleiro (medieval) e a prima francesa que vem passar férias à Barbela, desassossegando todos os primos e primas com o seu mundo moderno.

Aliás, há uma plena contiguidade entre a realidade antiga e a moderna (e o onírico) que se observa nas palavras e nas vivências. Tudo muito bem urdido pelo autor. 

Mas não se pense que a obra se fica pelo histórico e pelo maravilhoso. Subjacente há uma contínua ironia. Uma ironia tecida em filigrana – lembremo-nos que era o tempo da Censura – que teima em apontar para a crítica subliminar aos tempos de ditadura e de Grande Nevoeiro que se vivia em Portugal.

O processo imaginativo não fica aquém do de Saramago. Mas enquanto este podia ser mordaz e sarcástico porque escreveu depois de 74, Ruben A. teve de usar a paródia, a ironia elegante.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

 

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