Opinião
Letras | Virgínia Gersão? Pois – uma tia de Teolinda Gersão
Foi convidada para desempenhar o cargo de deputada à Assembleia Nacional que exerceu entre 1945 e 1949, integrando a comissão da Educação Nacional e Cultura Popular. As suas intervenções parlamentares debruçaram-se sobre questões educativas: a reforma do ensino técnico, o ensino particular e o excessivo tempo de aulas. Publicou textos em jornais da época sobre o estado do ensino em Portugal, defendendo a necessidade da instrução da mulher com vista à sua inserção na vida ativa
Direcionadas pelo patriarcado para o espaço privado da reprodução materna e doméstica, e consideradas inferiores, às mulheres pouco ou nada era permitido. Dada a elevada taxa de analfabetas em Portugal e portanto afastadas da escrita, das ciências, da participação na política em geral, poucas eram as mulheres que se dedicavam à literatura.
Apesar disso, escritoras sempre houve: de referir a Corte das Mulheres Escritoras que se reuniu em torno da Infanta Dona Maria, filha de D. Manuel I no Sé. XVI – depois “apagadas” pelas imposições da Inquisição. Mesmo no séc. XIX que, segundo Helena Vasconcelos no seu livro ‘Humilhação e Glória’ (Quetzal Editores, 2012) foi “pernicioso e, em muitos casos, devastador para as mulheres” porque consideradas seres frágeis e melancólicos, reservando-lhes o estatuto de mães e enclausurando-as no lar, muitas foram as mulheres escritoras nomeadamente de poesia lírica e confessional.
Os princípios socioeducativos da República e os movimentos ativistas das sufragistas feministas produziram no séc. XX uma plêiade de mulheres que começaram a escrever em revistas e jornais, lançando-se depois na crónica, na novela, no romance. Destas, poucas são lembradas: Ana Castro Osório, Florbela Espanca, Maria Lamas, Irene Lisboa, Mª Judite de Carvalho… Mas quem se lembra de Maria Archer, Maria Feio, Alice Ogando, Judith Teixeira, Olívia Guerra, Virgínia Victorino, Branca Gonda Colaço, Domitila de Carvalho, Manuela Porto, Isabel da Nóbrega, Mª Ondina Braga, Natália Nunes e tantas mais?
Há, ainda, as completamente desconhecidas como Virgínia Gersão (1896-1974) cujos livrinhos conheci por via de uma amiga que os possui com dedicatória da autora, tia da conhecida escritora Teolinda Gersão. Nascida em Cernache, Coimbra, de uma família da burguesia siciocultural, formou-se na Escola Normal Primária de Coimbra e depois, em 1920 – época em que eram raras as mulheres que cursavam os estudos superiores – em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra. Foi professora no Liceu Infanta D. Maria onde dirigiu a Biblioteca promovendo o teatro ao escrever uma série de deliciosas pequenas peças/operetas, musicadas pelo “insigne Professor Tomaz Borba” (1867-1950) e representadas no Teatro da cidade.
Foi convidada para desempenhar o cargo de deputada à Assembleia Nacional que exerceu entre 1945 e 1949, integrando a comissão da Educação Nacional e Cultura Popular. As suas intervenções parlamentares debruçaram-se sobre questões educativas: a reforma do ensino técnico, o ensino particular e o excessivo tempo de aulas.
Publicou textos em jornais da época sobre o estado do ensino em Portugal, defendendo a necessidade da instrução da mulher com vista à sua inserção na vida ativa. A sua obra maior e aquela que tem sido estudada (https://doi.org/10.1590/2236-3459/87497) foi, porém, A Gramática das Criancinhas, um projeto inovador que abandonava o formalismo e a rigidez do manual antigo, organizado por lições que funcionavam como histórias em que as personagens, as formigas, vão apresentando as matérias a aprender. Defendia que “nas primeiras idades só se pode ensinar brincando…”
E tinha razão…
O ensino da Gramática é tão importante! Depois não nos queixemos de que os alunos não sabem escrever…