Opinião

Letras | Uma voltinha a pé ou um acto filosófico

27 mar 2026 07:56

No livro Caminhar - uma filosofia de vida, o pensador francês Frédéric Gros caminha com o leitor numa miríade de abordagens sobre um aparentemente simples acto físico

Pôr um pé adiante do outro e repetir o movimento numa determinada direção; movimentar as pernas rumo a um certo destino ou a destino nenhum. Caminhar está ao acesso de todos os que têm saúde para fazê-lo. É uma locomoção grátis ou de muito baixo consumo. Caminhar sozinho, em grupo, em marcha ou em protesto – o que for. Faz bem ao corpo e à mente, é sabido, mas olvidam-se amiúde os seus benefícios.

No ram ram dos dias, a caminhada limita-se à saída pedonal de casa para o carro – que se estaciona o mais perto possível – e do carro para o trabalho. Noutras realidades, crianças, mulheres e homens caminham longas distâncias para sobreviver. A água que transportam à cabeça está a quilómetros dos modestos abrigos onde vivem. Nas zonas rurais mais próximas, recordam os mais velhos as horas a pé do campo para a cidade. À cabeça levavam as novidades colhidas da terra em troca de parcos tostões. O regresso era feito pelo mesmo caminho: longo, em terra batida e irregular.

No livro Caminhar - uma filosofia de vida, o pensador francês Frédéric Gros caminha com o leitor numa miríade de abordagens sobre um aparentemente simples acto físico. Relata as caminhadas percorridas por pensadores como Platão ou Nietzche, com as quais criaram pensamentos intemporais. Leva-nos até Thoreau que, no rescaldo dos passos dados, testemunha a realidade natural do caminhar, através do vegetal, do animal e do mineral. Chama-nos para as caminhadas do chamamento de Gandhi até ao mar, num longo acto político. Guia-nos ainda pelos percursos dos peregrinos movidos pelo filosófico caminho da fé.

Para Gros, caminhar não é um desporto; não há regras ou pontuações. “Ao caminhar, só um desempenho conta: a intensidade do céu”.