Opinião

Letras | António Lobo Antunes - Receita para me lerem

23 mar 2026 10:04

Aquelas narrativas não são senão espelhos da nossa História, ecos da nossa portugalidade – deficitária, superficial, indefinida – por isso nos custam tanto a ler

Afirmei bastas vezes e convictamente que António Lobo Antunes era o nosso melhor escritor vivo. Não podendo continuar a dizê-lo porque este mês de março levou-o de entre nós, continuo a ter para mim que foi/é o melhor dos melhores. De difícil leitura, sem dúvida, os seus romances (32), contrastando com a doçura tantas vezes divertida, tantas vezes irónica das suas crónicas (cinco livros delas!) sempre tão próximas, tão humanas.

A sua escrita, que começou a praticar e a aperfeiçoar de dia para dia exaustiva e exigentemente desde criança, veio revolucionar a nossa narratologia ao nível da construção diegética, quer ao nível da prosódia, da sintaxe, da semântica, sem nunca, porém, perder o fio (de Ariadne?) da sua bela escrita tantas vezes truncada no contexto, na personagem e até na ortografia, uma narrativa fragmentada e polifónica – o que torna, de facto, muito difícil a sua leitura – busque embora, a verdadeira literatura.

Por isso é o próprio autor que, numa das suas crónicas, entendeu em estilo simples, (simples?), propor uma receita para me lerem” cuja leitura sugiro, já que aqui me limitarei a transcrever apenas alguns trechos: “os meus livros não são para serem lidos no sentido em que usualmente se chama ler: a única forma parece-me de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença.(…). A pessoa tem de renunciar à sua própria chave aquela que todos temos para abrir a vida, a nossa e a alheia e utilizar a chave que o texto lhe oferece. (…) as palavras são apenas signos de sentimentos íntimos, e as personagens, situações e intriga os pretextos de superfície que utilizo para conduzir ao fundo avesso da alma. (…) Reparem como as figuras que povoam o que digo não são descritas e quase não possuem relevo: é que se trata de vocês mesmos. (…) E, por favor, abandonem a faculdade de julgar. (…) E uma vez acabada a viagem e fechado o livro, convalesça. Exijo que o leitor tenha uma voz entre as vozes do romance ou o poema, ou a visão, ou outro nome que lhes apeteça dar a fim de poder ter assento no meio dos demónios e dos anjos da terra”.

Dito assim, parece ser o leitor o centro da narrativa transformando-se, porém, libertando-se de si próprio – e é, porque, como diz Bruno Vieira Amaral, o escritor, para a escrita dos seus muitos livros “vasculhou e escreveu sobre o Portugal suburbano, a burguesia lisboeta das Avenidas Novas, a classe média urbana, a velha fidalguia rural, os esquecidos dos bairros periféricos, os pornograficamente ricos das moradias de luxo, os banqueiros e os delinquentes menores, os deslocados do campo para a cidade, os deslocados das colónias para a metrópole, as cabeleireiras e os empregados de balcão, os políticos, os enfermos, os traficantes de diamantes e de influências.”

Aquelas narrativas não são senão espelhos da nossa História, ecos da nossa portugalidade – deficitária, superficial, indefinida – por isso nos custam tanto a ler.