Opinião

Kassa Overall traz futuridade ao 29.º Festival de Jazz do Valado

10 abr 2026 14:05

A estreia em Portugal do músico norte-americano alcandora-se singularmente ao patamar dos concertos absolutamente imprescindíveis

Em 1989, na sua desassombrada Miles, The Autobiography, Miles Davis citava o seu celebrado cúmplice Max Roach defendendo que o próximo Charlie Parker iria provavelmente surgir dos ritmos e melodias do rap. Kassa Overall, um dos músicos que melhor comprovam e sustentam essa sapiente dedução, estrear-se-á em Portugal na próxima edição do sempre apelativo Festival de Jazz de Valado dos Frades, que assim volta a honrar notoriamente os seus pergaminhos. O seu mais recente álbum, Cream, de 2025, será o núcleo desse seu concerto de 9 de maio, no Cineteatro da Nazaré, apresentando ao vivo um disco criativamente substancial, cuja opção conceptual é a recontextualização de clássicos do hip-hop como standards de jazz, e vice-versa, concretizando essa ideia de um modo admirável, que não deixa ninguém indiferente, evidenciando também as elogiáveis potencialidades de companheiros de palco como o eloquente saxofonista Emilio Modeste, o insinuante teclista Matt Wong e o desenvolto percussionista Bendji Allonce, excelente e virtuosa banda que o acompanhará nesta sua estreia nacional.

Sendo natural de Seattle, Kassa Overall desde cedo se integrou na vivência artística da cidade que também viu crescer vultos musicais como Jimi Hendrix e Quincy Jones, tendo estudado percussão no Conservatório de Oberlin, e aí confrontado diariamente os seus estudos de jazz com a intrínseca batida hip-hop que já o inspirava, o que inúmeras vezes se transformou em acentuados desentendimentos com seus professores menos liberais. Encaminhou-se seguidamente para Brooklyn, onde finalmente encontrou o seu lugar no universo da música afro-americana, tendo sido baterista em agrupamentos liderados por Christian McBride (que atuará no final deste ano em Leiria), Ravi Coltrane e Geri Allen, tendo também tocado com Yoko Ono, eclético percurso em que foi cimentando a sua genuína voz pessoal, que finalmente despontaria em disco, em 2019, em Go Get Ice Cream and Listen to Jazz, intrépido álbum de estreia que registou a participação de estrelas da música improvisada como Roy Hargrove e Arto Lindsay.

No ano seguinte editou I Think I'm Good, segundo e melhor sucedido álbum, em que voltou a integrar artistas da sua comunidade como Vijay Iyer e Angela Davis. O talento e a arte de Kassa Overall como baterista, compositor e produtor continuaram a evidenciar-se e, em 2023, foi notabilizado no The New York Times pela proeminente percussionista Terri Lyne Carrington, numa sua retrospetiva jazzística, valorizando-o como um dos artistas a ter em atenção neste milénio e reverenciando-o como um ínclito mestre na fusão e mistura de estilos e sonoridades, justapondo sucessivamente géneros através da sua perícia na produção e utilização de formas melódicas e harmónicas, integrando inventivamente novas linguagens nas mais antigas e valorizando-as pelo ineditismo e espírito de abertura.

Embora o concerto tenha como centralidade o álbum Cream, certamente que Kassa Overall e os seus acólitos nos transmitirão muito mais nesta sua estreia em Portugal, fazendo-o numa edição do Festival de Jazz Valado Nazaré em que também se celebra o centenário de Miles Davis, que é também homenageado neste disco, logo na faixa de abertura, através da sua “Freedom Jazz Dance”, em perfeita confirmação da tese de que jazz e hip-hop se configuram e aliam dialeticamente numa pureza estética comum, exemplo perfeito da inventividade de um Kassa Overal que neste seu jogo criativo transcende a simples rearmonização de estilos diferenciados, respeitando a sua essência e expandindo as suas possibilidades harmónicas e rítmicas de maneira convincente, de um modo que a insuspeita Down Beat avaliou como um trabalho confiante e experimental, de cortar a respiração, mais do que bom, talvez até genial.

Num ano em que o mais importante festival de jazz do centro de Portugal volta como habitualmente a apresentar uma convidativa e multifacetada programação, este concerto de Kassa Overall na Nazaré alcandora-se singularmente ao patamar dos absolutamente imprescindíveis, como categórica cabeça de cartaz de um evento que é sempre um acontecimento.