Opinião
A dança, os amigos, e o mundo
A dança serve também para desfazer o mito de que há um modo certo de ser e de fazer
Olho a tela em branco à espera do que eu tenha para dizer, mas na cabeça os assuntos dançam sem se deixar colher. Sem conseguir escolher apenas um, terei de os concitar aos três: a dança, os amigos e o desvario do mundo que, podendo não parecer, estão ligados.
A dança, tal como a vejo, tal como a sinto, permite conhecer, relacionar e urdir, emoções, pensamentos, angústias e esperanças, e assim tecer o movimento. Permite que quem dança possa aprofundar-se um pouco mais, entendendo os seus limites, forças e medos, descobrindo que pode maravilhar, e maravilhar-se, muito mais do que julgava.
A dança serve também para desfazer o mito de que há um modo certo de ser e de fazer, abrindo-se antes à diferença e à observação de um infinito mundo de possibilidades que trarão para o movimento a mesma tão importante e necessária diversidade de que o mundo é feito. Esse mundo de corpos de todos os formatos e idades, de diferentes formas de pensar e de fazer, de múltiplos interesses e escolhas, que não é uma coisa “dos outros”, que não está para além das nossas vidas, antes deverá estar bem dentro delas.
De todas as muitas frases que existem sobre os amigos, as que melhor descrevem a forma como vivo as amizades que me enchem a vida são as que dizem que eles são a família que escolhemos, que os grandes amigos não apenas conhecem as nossas histórias como fazem parte delas, e que a amizade é algo que amadurece lentamente.
Os grandes amigos fazem parte do que nos vai construindo e tornando no que somos; porque nos ouvem e nos servem de espelho, porque nos fazem parar e entender um necessário passo atrás, porque falamos de acontecimentos passados que vivemos juntos e nos comovemos, porque sabem quando a sua presença é mesmo importante, ou porque nos rimos juntos, e de novo somos adolescentes e invencíveis. Podemos encontrarmo-nos de longe a longe e pouco ou nada falarmos, entretanto, podemos até desconhecer alguns acontecimentos das nossas vidas mas, no reencontro, somos os mesmos da sempre fácil conversa, da sempre genuína alegria e do sempre tão único abraço.
Depois, há o mundo de agora, violento, intransigente, intolerante e fragmentado, que parece ter engolido aquele outro que começámos a viver e a conhecer melhor na adolescência. Aquele que nos trouxe a liberdade, que derrubou o altíssimo muro de Berlim, que inventou esta teia sem fios capaz de nos ligar a tudo e a todos sem sairmos do sofá, que fez nascer primaveras árabes, existir música de trazer no bolso, fervilhar um caldeirão de ideias novas, e abrir horizontes vastos sem fronteiras.
Mas de repente, porque não fomos percebendo os sinais ou não lhes demos a devida importância, vemo-nos inundados de notícias más, de medos, de horrores e de espantos perante o que antes pareceria inverosímil. Como serão, por dentro, os senhores do mundo? O que sentirão se abrirem uma janela numa noite de Verão? Terão grandes amigos? Alguma vez dançaram como se ninguém visse? Que histórias contam e quem as ouve? Sentem-se invencíveis apenas por serem felizes? Serão talvez perguntas infantis, sim, mas são as que importam quando pensamos no sentido de estarmos vivos.