Opinião

Índios e cowboys

2 jun 2017 00:00
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Fernando Ribeiro, músico

O falecido Umberto Eco escreveu no seu livro de crónicas sobre as suas viagens nos EUA, que este era o único povo capaz de inventar a história filmada da Branca de Neve e a do Tubarão e prestar culto a ambos de forma maciça, ou mainstream se preferirem.

O maniqueísmo tem marcado quase sempre as grande decisões da América, muitas vezes enquanto último argumento para bombardear aldeias. Arrasar com os maus da fita é sempre factor, nem que para isso se tenham de inventar e preparar enredos de histórias que nunca tiveram final feliz.

Para juntar ao caldeirão que já ferve: uma noção cada vez mais perniciosa e disseminada por entre todas as faixas etárias e estados sociais, do “nós contra eles”. Esta é uma evidência que marcou muitas presidências mas que agora atinge o seu expoente máximo, com o top of the chain president Donald Trump.

Apontar o dedo ao stupid white man é um acto cívico. Mas, como muitos desses actos, não passará da mera intenção, da sinalização de uma tomada de posição que, embora inevitável e até saudável, também tem muito de inútil se tentarmos ver Trump à imagem do americano médio, conservador de direita.

A recusa e a tentativa de negociação (esta já mais à medida do Trump negotiator) do Acordo de Paris é abominável aos olhos do mundo sustentável mas penso que a perspectiva se altera quando se cruza o oceano até à maior economia do mundo.

Quem viajou já nos EUA deve ter reparado que todos os dias o utilizador, o cidadão comum não tem presente a sua pegada ecológica. Há embalagens para tudo nos E.U.A.; ecopontos são raridades em quase todas as cidades e o Americano vive na sua concha de consumo e de tudo o que, literalmente, o envolve. Cartão, plástico, esponja, esferovite, vidro.

Os E.U.A. inventaram o descartável e fizeram uso dessa invenção como ninguém. É um principio antropológico errado, olhar outros povos pelas nossas noções de civilização. As coisas numa Europa que começa a implodir serão sempre bastante mais calmas e bastante mais pequenas, à escala, do que o se passará ainda nesta Administração Trump.

O livro de Goldhagen (Os carrascos voluntários de Hitler) é uma reflexão extremamente incómoda acerca do papel do cidadão comum no edificar de um império de terror, argumentando Goldhagen que a dimensão dessa louca empreitada, foi possibilitada por uma colaboração de um povo em transe.

Não é à toa, que o populismo lembra a palavra popular e afirmo que o tal Americano médio, muito provavelmente, tomaria a mesma decisão de Trump, usando os mesmo argumentos que o seu Presidente.

É verdade que existem tantos Americanos esclarecidos e que vários Estados vão continuar a cumprir com o Tratado, mas a perigosa semente foi plantada no âmago do orgulho americano e este espirito - que desconsidera muito do que é essencial para o Europeu (ambiente, cuidados de saúde, paz) - esse gut feeling é muito mais poderoso que qualquer voz ou atitude sensata que se levante dos cada vez mais exclusivos Estados Unidos

Poderíamos  dizer que existe o perigo da aceitação e absorção a médio prazo de tudo este absurdo  presidencial, mas seria descuidar o facto de que essa aceitação já começou. Tem sido, aliás, a tarefa mais importante de toda a grande rede social e media que, sem tréguas, acusa os contrarians e exulta as “vitórias” de Trump como passos para a nova Grande América.

Projecto esse que não terá problemas em arrasar tudo à sua volta e tornar os E.U.A. numa espécie de ilha inexpugnável, com a podridão social, o fim do sonho e a abolição de uma liberdade com que muitos sonhavam.

*músico, vocalista dos Moonspell