Opinião

Democracia 2024

28 jan 2024 16:28

Concedo que os agentes políticos, uns mais que outros, alimentem esta pobreza de espírito

É domingo no mundo mas trabalho. Dirijo-me à bomba, em Alcobaça, para abastecer. Na TV discursa André Ventura. Tiro o MB para pagar mas o funcionário (brasileiro) atento ao líder do Chega, atira: “E devia ser assim como ele diz, não acha?”

Digo que não quero falar de política mas pagar o combustível. Ele insiste, lançando-se numa diatribe sobre injustiça fiscal, corrupção, imigração, e o apoio recente de Bolsonaro. Eu insisto em não engajar nesta conversação, e tento rematar com um “boa sorte, porque todos precisamos”. Ele não se fica e, mordaz, atira, o que julgava ser a última palavra: “Sorte e sabedoria.” Ou seja, chamou-me burro. É isso que me faz voltar e “proibi-lo” de falar de política comigo sem o meu consentimento. No dia seguinte, telefono para a bomba e faço queixa. Motivo: assédio e mau serviço ao cliente.

Existem ocasiões e fóruns mais apropriados para “discutir” política. Um dos princípios básicos que observo é nunca antagonizar ou assediar ninguém por ideias contrárias. É um aspecto que depende de nós. Incompatibilizarmo-nos com amigos, familiares (ou clientes) por questões políticas demonstra falta de valores e incapacidade para os priorizar.

Admito que perante as guerras ideológicas que fazem o mundo arder, este é um argumento ingénuo mas quem faz as guerras, não somos nós. Nós apenas as lutamos. Concedo que os agentes políticos, uns mais que outros, alimentem esta pobreza de espírito. Todavia, nunca tinha tido esta experiência com um simpatizante doutra força política.

Tenho amigos da esquerda à direita. Nunca me incompatibilizei com nenhum deles por causa de divergências. Considero que é sempre aconselhável esclarecer mal-entendidos e dúvidas, como, por exemplo, o último caso da remoção de um jornalista do Expresso de um debate com o líder do Chega na Universidade Católica.

Agora, desenganem-se: isto não foi um mal-entendido. Aconteceu no meu espaço quotidiano. Não é o futuro, é o presente. E, pelo menos, matéria para importante reflexão.