Opinião

De pé com as mãos | Um almoço grátis

29 out 2026 08:01

No jornalismo, o tokenismo não é ter uma pessoa negra na fotografia. É usar uma pessoa para resolver, na imagem, um problema que o texto não resolve

Italo Calvino começa um livro assim: “Estás a começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um viajante”. No capítulo seguinte, o romance é interrompido. Começa outro. E outro. Dez romances que nunca chegam ao fim.

O Jornal de Leiria começa uma reportagem assim: “Na Villa Hortênsia de Korrodi — E se um desconhecido o convidar para um almoço grátis? Pág. 10”.

Nos dois casos, a história não continua. Fica a fotografia da mesa posta.

Começo com uma pergunta simples, que fiz a mim próprio na semana passada: quantas primeiras páginas o Jornal de Leiria dedica a quem vive com baixas condições materiais de vida?

Fui procurar. O arquivo de capas do jornal não tem motor de busca por tema, só se vê a capa da semana. O SAPO tem miniaturas, mas sem texto pesquisável, por isso, não há número preciso. Há um sintoma.

Encontrei uma excepção que confirma a regra. Em 22 de Outubro de 2020, o Jornal de Leiria publicou a história do Pedro, um homem que viveu quase trinta anos na rua e que, na altura, tinha finalmente “uma cama em condições”. Reportagem de Maria Anabela Silva, fotografia de Ricardo Graça, meu editor e amigo. Esse trabalho ganhou, em 2021, o primeiro prémio regional do Prémio de Jornalismo “Analisar a Pobreza na Imprensa”, da EAPN Portugal. O júri não era de jornalistas, era de dezanove pessoas, de todos os distritos, que já viveram situações de pobreza.

É importante dizer isto: quando a pobreza chega à capa no Jornal de Leiria, chega quase sempre pela porta da excepção com final um feliz: o sem-abrigo que sai da rua. Não chega como estrutura, como 1300 famílias sinalizadas, como fundo de emergência de um milhão, como casas que precisam de obras.

Na semana passada recebi três páginas que mostram o resto da cidade. Duas falam de energia. Uma fala do almoço.

Nas páginas 4 e 5, com o título “Leiria é o segundo concelho do País com mais unidades para produzir energia para auto-consumo”, Maria Anabela Silva explica, com dados da E-Redes relativos a Agosto de 2026, que Leiria tem 6.148 instalações e 60.568 kW de potência instalada. Só Guimarães, com 6.575, tem mais. No distrito são 20.567 instalações, 206.193 kW. No País, mais de 530 mil auto-consumidores.

O texto explica ainda, em caixa de perguntas e respostas, o que é o auto-consumo: produção de electricidade a partir de fontes renováveis — sobretudo solar — no próprio local de consumo, seja uma habitação, empresa ou prédio, de forma individual ou partilhada em comunidades de energia. A poupança pode ser de 285 euros num consumo anual de 720 euros. Desde o início do ano, Portugal registou 715 horas não consecutivas de abastecimento exclusivamente renovável.

Isto é matéria social: quem tem telhado, dinheiro para o investimento inicial e informação consegue autonomia. Quem não tem, fica no mercado regulado e vê a factura subir. É a pobreza energética, medida em kW.

Na página 10, com meia página de fotografia, está o outro mundo. Seis pessoas à mesa, loiça amarela, vinho branco, risos. “Reviver o passado na Villa Hortênsia: 12 desconhecidos entram na casa, almoçam e ouvem música”. Secção Sociedade. Texto de Paula Sofia Luz, minha amiga.

O homem da fotografia é Miguel Korrodi, bisneto de Ernesto Korrodi, o arquitecto que desenhou a casa. Carrega o nome, carrega a casa.

O que esta página ensina é o que Rosabeth Moss Kanter explicou em 1977, em “Men and Women of the Corporation”. Quando um grupo tem menos de quinze por cento de representação num espaço, a pessoa que é minoria deixa de ser vista como pessoa e passa a ser vista como símbolo. Kanter chamou a isto tokenismo e descreveu três efeitos: hipervisibilidade, contraste e assimilação.

No jornalismo, o tokenismo não é ter uma pessoa negra na fotografia. É usar uma pessoa para resolver, na imagem, um problema que o texto não resolve. Na mesa da Villa Hortênsia está uma mulher negra. Seria fácil — e seria um erro meu, que já cometi em conversa — dizer que ela ali está para fazer de conta que há inclusão. Se digo isso, transformo uma convidada que foi almoçar numa prova da minha tese. Faço-lhe a ela o que acuso o jornal de fazer aos pobres: uso-a como ilustração.

O tokenismo, se existe aqui, não está na cara de quem se senta - está na mão de quem edita. Está na escolha de mostrar diversidade numa mesa farta e não mostrar diversidade numa fila para apoio à factura da luz.

Na prática, o que a fotografia mostra é homogeneidade social. O título vende a ideia de risco social ("um desconhecido convida-te"), mas o que ali está é um casting de classe média-alta a fazer de conta que transgride. Meia página de Sociedade não é para o sem-abrigo, é para 12 pessoas numa villa histórica. Não se está a ignorar a pobreza por falta de tempo; está-se a escolher o que é "sociedade". E "sociedade" aqui passa a ser lifestyle com roupagem cultural, uma estetização da riqueza apresentada como se fosse generosidade ou uma experiência antropológica. Se quisermos ser rigorosos, não é uma reportagem sobre inclusão; é uma reportagem sobre exclusão bem fotografada.

Um jornal regional tem uma função litúrgica, no bom sentido: define, todas as semanas, quem conta como "nós". Quando chama "Sociedade" a doze pessoas que almoçam numa casa burguesa, diz que o "nós" é composto por quem pode ser convidado para um almoço grátis. Quando mostra o autoconsumo só como tabela técnica e não como fractura social — quem tem telhado e quem não tem — diz que a energia é um assunto de quem tem casa.

É por isso que o Calvino nos serve, o livro dele é feito de começos que não acabam. O Jornal de Leiria, neste número, também. Começa a história da energia, com as suas 6.148 instalações, e interrompe. Começa a história da escola à prova de tempestades em Carvide, na página 9, e interrompe. Começa a história do almoço grátis e dá-lhe meia página.

A revista Caras faz melhor porque é honesta. Mostra ricos a ser ricos e não finge que é um acto cívico.

Esta crónica não é contra o Miguel, que tem todo o direito de abrir a casa do bisavô. Não é contra a Paula, que é minha amiga e que fez o seu trabalho na página 10, nem contra a Maria Anabela Silva, que fez um excelente trabalho didáctico sobre o auto-consumo nas páginas 4 e 5 e que já mostrou, com a história do Pedro, que sabe tratar a pobreza sem estetização. É a favor de pôr, na mesma página, a villa que produz e consome e a casa que não consegue pagar a factura.

Isso seria acabar um romance. Seria mostrar a cidade inteira à mesa.