Opinião

De pé com as mãos | O Cangalheiro Colectivo

1 out 2026 11:43

Palma morreu como viveu: no meio do ruído de um país pequeno, que idolatra os seus marginais depois de garantir que eles já não podem incomodar ninguém

Morreu Jorge Palma e o país vestiu o luto como quem veste um casaco que já tinha no armário, à espera da ocasião. Não há nada mais português do que a aflição organizada. O cangalheiro colectivo, não transporta o defunto, transporta-se a si mesmo até à cova, para ver se cabe lá dentro e se, por fim, lhe dão importância.

Jorge Palma teve o mau gosto de ser livre num país que só aprecia a liberdade quando ela já não oferece perigo. Enquanto vivo, era um bêbado, um génio intermitente, um homem que falhava a hora e acertava na canção. Coisa intolerável para a moral da pequena burguesia, que quer o artista pontual e sóbrio, para que a desordem fique toda na letra.

Morto, fica perfeito, a morte é a grande correctora de biografias. Tira-lhe o hálito, o atraso, a ressaca, e deixa-lhe só a obra, que agora já não precisa de se defender. O país precisa de um morto para amar um vivo póstumo porque não sabe o que fazer com um vivo. O vivo reclama, contradiz, envelhece. O morto já só consente e o português, na sua essência, não quer amar - quer consentimento.

O Palma cantou a fragilidade como os antigos cantavam a guerra, com a mesma dignidade. Só que nós, que gostamos de heróis de mármore, não soubemos o que fazer com um herói que confessa que vai partir a louça toda. Agora que partiu de vez, podemos finalmente partir a louça por ele, com grande alarido e fotografia para o jornal.

A verdade sobre Palma é mais simples e menos gloriosa. Ele foi o último sobrevivente de uma Lisboa que já não existe e que, para ser franco, nunca teve a grandeza que lhe quiseram dar. Uma Lisboa de tasca, de fumo de cigarro, de desalento burguês e de noites perdidas no Bairro Alto, vivida por uma geração que julgou que a decadência física e o excesso eram formas de genialidade ou de protesto político. Não eram. Eram apenas tédio.

Eu conheci o tipo de canção que ele fazia. Canção de um homem que ficou acordado até tarde demais, que viu o bairro mudar e que percebeu que o amor era uma rua sem saída com luz ao fundo. “Bairro do Amor”. Não é apenas um título. É um epitáfio para um país inteiro.

O país não chorou só o Palma. Chorou a oportunidade de o chorar em conjunto. É mais fácil amar um morto do que aturar um vivo. Enquanto vivo, o Palma dava trabalho. Porquê? Porque era contraditório, porque bebia, porque chegava atrasado. Porque dizia disparates e a seguir escrevia uma canção que nos desmontava a vida toda. Porque não cabia no cartaz limpinho do artista para a homenagem. Um vivo exige paciência, exige que o oiças mesmo quando desafina, exige que lhe perdoes. Um morto não, já não te interrompe, já podes pôr-lhe na boca aquilo que queres ouvir.

É o que se pode chamar amar um vivo póstumo. Nós não amamos o homem. Amamos a ideia final dele, já sem arestas, já sem cheiro a tabaco e a bar e transformamos a obra numa lápide bonita onde nos podemos encostar para tirar uma fotografia com uma legenda sentida. Palma morreu como viveu: no meio do ruído de um país pequeno, que idolatra os seus marginais depois de garantir que eles já não podem incomodar ninguém.

E há outra coisa, mais funda, e mais portuguesa: nós só sabemos consagrar quando já não há risco de o consagrado nos responder. Enquanto o Palma podia ainda escrever uma canção má, dizer uma parvoíce numa entrevista, votar no partido errado, era perigoso amá-lo por inteiro. Morto, torna-se seguro, já não há o próximo disco para desiludir. Já não há opinião para nos envergonhar e podemos finalmente dizer “génio” sem medo de ele nos desmentir no dia seguinte.

Fala-se dele agora porque a obra dá trabalho? Dá. Mas o morto dá menos trabalho que o vivo, o vivo pedia salas com pouca gente, discos que vendiam pouco, respeito por um tipo que vivia de cachets pequenos. O morto dá para tudo, para concertos de homenagem, para programas de televisão, para ruas com o seu nome, para unanimidade, e a unanimidade é o negócio mais lucrativo do cangalheiro colectivo: todos de acordo, por uma vez, e à custa de alguém que já não pode discordar.

O Palma sabia disso. Cantou isso a vida toda. "Enquanto houver estrada para andar" não é uma canção de esperança. É uma canção de teimosia contra isto mesmo - contra a ideia de que só vale a pena andar quando já há multidão atrás.

O que me irrita sempre com o que é mesquinho não é a dor — a dor existe, na viúva, nos filhos, nos músicos que tocaram com ele. O que me irrita é a pressa. Essa aflição de chegar primeiro à dor dos outros, como quem chega primeiro à bicha do pão. Têm medo de que, se não chorarem hoje, amanhã já ninguém acredite que gostavam dele.

O Palma, tinha, de facto, uma educação clássica que raramente se encontra na música dita "popular" em Portugal. Era um pianista num país de pandeiretas. Um homem que sabia que a beleza é frágil — ele mesmo o disse — e que a alma, quando existe, dói. O que se passa hoje com a morte dele; é Portugal à espera de um morto para gostar de um vivo. Um pé na homenagem, outro no esquecimento. Foi isso que ele cantou no Palma's Gang, 1993, mas escrita ainda nos anos oitenta:


Ai, Portugal, Portugal

De que é que tu estás à espera?

Tens um pé numa galera

E outro no fundo do mar

 

É a radiografia do país: um pé na glória - a galera, as Descobertas, o mito do passado - e o outro no fundo, afogado, à espera que alguém o salve. E o refrão que mata tudo:

 

Enquanto ficares à espera

Ninguém te pode ajudar

 

Se queres honrar o homem sem ser cangalheiro, faz o contrário do que o país faz agora: não ouças "Frágil" pela milésima vez esta semana, e tudo isto se resolve numa frase que ele nunca escreveria, mas que ela escreveria por ele: a obra não dá trabalho, quem dá trabalho é a nossa preguiça de a merecer. Vai ouvir uma canção dele que nunca ouviste. Uma má, se for preciso. Uma que não percebas. Deixa que ele volte a dar trabalho, é a única forma de o trazer de volta à vida.

“Disse fêmea”, é uma das canções menos conhecidas dele, é talvez a canção mais áspera e mais terna do Palma. Não é uma canção de amor, é uma canção de iniciação. Se “Frágil” pede que o outro nos ampare, “Disse fêmea” faz o oposto: empurra-nos.

É o verbo que faz a mulher:

 

Disse fêmea / Mulher feita / Disse cresce / Disse muda / Perde a estúpida inocência

 

Não há adjectivos. Há verbos no imperativo. É um acto de fala performativo da linguagem: ao dizer “fêmea”, ele faz a fêmea existir, não descreve, decreta.

A passagem de “menina feita mulher” não é biológica, é ética. Crescer, mudar, perder a inocência estúpida - não a inocência pura, mas a estúpida, a que nos mantém à espera de um pai, de um príncipe, de um Estado que nos salve. É um rito de passagem sem padre e sem altar. Só voz e corpo.

A segunda estrofe é toda uma inversão:

 

Ama-te a ti mesma / O mundo espera / Cheio de tudo / Come-o, feliz, sã, gloriosa, cheia / Diz-te fêmea

 

É o corpo como mundo, e o mundo como alimento. Aqui o Palma é mais vitalista que muitos vitalistas. O mundo não é inimigo, não é um vale de lágrimas, é um banquete. E o corpo de mulher não é objecto para o outro ver, é sujeito que come o mundo. “Come-o” tem uma carga erótica e sagrada ao mesmo tempo. Não é "oferece-te". É "devora tu". É de uma grande força imanente: a salvação não está fora, está em te amares a ti mesma e em te fartares do mundo.

Por isso o refrão "Diz-te fêmea" é tão importante. Não é ele que te diz: és tu que te dizes. A identidade não é um rótulo que vem de fora - do homem, da sociedade, da família. É uma auto-nomeação: tu tornas-te aquilo que dizes de ti.

Mas a canção tem um avesso escuro, que é onde entra o Palma mais fundo, o avesso, a melancolia do homem que fala:

 

Mal eu sabia / Que a vida rouba os sonhos / Mal eu sabia / Que o mundo nos desmama / De paixões surdas / Cava na cara / Sulcos secos

 

Aqui muda o sujeito. Já não é o mestre que inicia. É o homem que confessa que falhou. Que a vida lhe roubou os sonhos e que o tempo lhe cavou sulcos secos na cara. É o pai, o amante mais velho, o homem frágil do costume. E por isso vêm os versos mais duros do cancioneiro dele:

 

Não há braços de fêmea / Para embalar / O mundo / Acabou-se o que era doce / Acabaram-se os amantes / O preço da mão estendida é / A pagar, a pagar

 

 Ele recusa a ideia de que a mulher exista para embalar o mundo, para salvar os homens da sua tristeza. Não há colo que chegue para o tamanho da desilusão. O doce acabou, os amantes acabaram, e toda a mão estendida cobra um preço.

 

O último verso fecha o círculo:


Não repitas os meus erros / Menina feita mulher

 

É a herança que o Palma nos deixa, sem paternidade sem paternalismo. Ele não nos diz o que fazer, diz apenas: não faças como eu. Não fiques à espera, não peças colo ao mundo, diz-te fêmea tu mesma, antes que o mundo te diga fêmea à força. É das poucas canções portuguesas onde o feminino não é musa, não é mãe, não é virgem. É sujeito autónomo, voraz, glorioso e cheio. É o Palma a resolver a contradição de toda a sua obra: se somos todos frágeis, como é que se vive sem se desfazer? A  resposta dele, em “Disse fêmea”: amas-te a ti mesma, comes o mundo, e dizes o teu próprio nome em voz alta.