Opinião
De pé com as mãos | COSTA DA MORTE
Pagamos com tudo, excepto com atenção. E é por isso que já não vemos
Rota dos Faros
Esta crónica é o registo de um erro anatómico da luz.
Há lugares onde a terra não cede ao mar: de-fronta-o, com o orgulho calcificado das suas falésias. Esta costa, a que chamaram Morte por puro temor da sua nudez, é, afinal, o lugar onde a vida se levanta mais crua, despida de adornos, reduzida à rocha e à espuma. Não há aqui espaço para a melancolia; tudo é de uma presença violenta, como o primeiro sol da manhã sobre o granito rosa de Camariñas.
Quem viaja até à Costa da Morte procura o nevoeiro, o pacto cego do Inverno, a cinza dos navios que o Atlântico digere e o luto das viúvas de preto. Eu e o Guilherme, o meu filho, viemos procurar outra coisa. Viemos fazer a rota dos faróis — esse caminho de pedra gasta e granito molhado onde o mar mata gente para passar o tempo —, mas o céu abriu-se num azul vidrado, sem uma nuvem para dar sombra. O que aqui se publica não é a crónica da bruma; é a dissecação de um Agosto excessivo, onde o sol queima e o pneu da mota morde o asfalto à beira do precipício, com o peso de duas vidas em cima do mesmo motor.
Escrever com chuva é fácil. Qualquer um é poeta quando a paisagem pacifica o desamparo. Sob o clarão de um sol que não desce — cai —, a natureza recusa consolar o viajante. Mostra-nos a miséria toda. Diante do infinito cego, o capacete passa a ser a nossa última casa, a concha que nos protege da dissolução e o tecto que levamos para o fim do mundo para adiar o abismo. Neste limite onde a estrada acaba e a brincadeira dos homens termina, a falésia não negoceia com eufemismos. A língua não se pode limpar ao avental; exige o latim dos mortos e o vernáculo do marujo, a junção do grito com a palavra exacta.
Caminhar por estes trilhos, de farol em farol, não é uma viagem para os olhos; é uma aprendizagem do tacto. Os pneus entendem a ferocidade da urze, o peito acolhe o vento que cheira a sal e a naufrágio, e os olhos procuram aquela claridade vertical que as torres projectam sobre o abismo. Cada farol é uma palavra de cal escrita contra a noite. Uma promessa de que, mesmo onde o mar ruge com a sua boca mais escura, o homem insiste em acender o lume, erguendo a sua frágil e luminosa soberania diante do infinito.
Ao falar da Costa da Morte, as referências literárias expandem-se para além do isolamento do farol e abraçam o território completo: a barreira do Finis Terrae, os saqueadores de naufrágios e a identidade de uma “pátria indómita” esculpida pelo Atlântico. Esta região serviu de berço e inspiração para movimentos literários inteiros que transformaram o medo do mar numa das correntes estéticas mais ricas da Europa.
Herman Melville e Joseph Conrad surgem como referências literárias monumentais para a Costa da Morte, mas representam filosofias marítimas opostas. Enquanto Melville foca a obsessão metafísica contra as forças da natureza, Conrad centra-se no teste moral do homem frente ao isolamento. Além deles, a região evoca perfeitamente o horror cósmico de H. P. Lovecraft e a poesia telúrica da galega Rosalía de Castro.

viemos fazer a rota dos faróis (camiño dos faros),
e disseram-me que aqui só chove
e que o mar mata gente para passar o tempo.
vim no dia errado.
o céu está limpo, de um azul vidrado,
sem uma nuvem,
para dar sombra.
e o sol bate-me na cabeça
como um deus cego que exige o seu culto.
Praia do Lago. É o sítio perfeito para quem vem de mota e quer desligar, beber o clarão até ficar da mesma matéria do horizonte. Nenhuma nuvem. Uma limpeza que dói nos olhos. A água translúcida até ao fundo, e o fundo é areia branca. Não há nada que a turve. E eu vejo o fundo como quem vê o pensamento da água.
o atlântico aqui esqueceu-se de ser
a costa da morte e ficou a olhar para si próprio.
o vento vem de poente e traz sal.
tudo está quieto e ao mesmo tempo tudo se move.
é maravilhoso e não significa nada.
e por isso mesmo é maravilhoso.
quer dizer, maravilhoso não é adjectivo.
é o verbo que o olhar faz quando não sabe
como ficar.
a areia é branca como a primeira palavra
a ser dita.
escrever isto com chuva é fácil.
qualquer um é poeta. mas com sol vê-se a miséria toda.
o mar tem este ar de quem não faz mal a ninguém.
mentiroso, o sacana.
sei o que tu és no inverno. já te tirei a ficha:
centenas de barcos ao fundo, cruzes de pedra,
viúvas de preto.
vim de GSA, nádegas cheias de autocolantes,
o totem da autonomia, animal cansado, deus
menor de gasolina para queimar. vim assim:
com uma perna só e a outra feita à estrada –
e o mar não me pergunta pelo que falta,
porque ao mar nada falta,
o mar é um excesso
que se basta.
viemos procurar os pequenos Stelvios de alcatrão negro que rastejam pelo esqueleto de granito da costa: estradas retalhadas no vazio, veias abertas na pedra, curvas cegas à beira do precipício e solavancos na vertigem. Sentir o pneu morder o asfalto mesmo ao lado do abismo, enquanto o mar, lá em baixo, nos fita de olho vazio — com a indiferença de uma besta que digere as suas vítimas. Não há poesia de salão nestas curvas; há apenas a geologia exposta, a solidão absoluta deste agosto sem sombras e um motor a estalar contra o silêncio do mundo.
o calor pesa como pedra sobre a pedra,
a luz continua, dura,
sem memória dos mortos ou de tempestades,
mas ali o chão divide-se. à frente,
onde a terra se desfaz no mar,
o olhar já não tem para onde ir.
é o silêncio do sol.
a mota conhece-me pelo
que lhe dou.
sabe onde me falta.
encaixo-me nela como se encaixa
uma palavra na outra boca.
a água à frente é translúcida
abre-se, sem nuvens,
e eu estou todo aqui,
no tesão da claridade.
lago-mar não é praia.
é a cama desfeita de luz.
Cheguei à Playa de Los Lelos. Laxe. Claro. Sou um cabrão com sorte. Apanhei-a sem vento. É das passagens mais selvagens da rota. É o sítio onde a estrada desce só o suficiente para te obrigar a parar e dizer foda-se. E foi o que fiz. A Rota dos Faros não é para ver faróis. É para perceberes que a luz está sempre noutro lado. Sempre a mesma coisa: areia, água e vontade de não voltar para trás. É de continuar. A próxima praia é ainda mais estúpida de tão bonita.
Entre escrever um poema e fazer a autópsia à paisagem, vai dar ao mesmo mar, que engole os dois. A Costa da Morte é o lugar onde a natureza finge ser amável. A turquesa é só uma fina película de água quente por cima de um Atlântico frio que já comeu navios inteiros. Os pinheiros agarrados à duna são teimosos, não bonitos. Um tipo, aqui, no limite da Europa, entre o farol ao fundo e a floresta atrás, é só um ponto de interrupção. Feliz, a respirar bem fundo antes da próxima estrada. Los Lelos. Nome de doidos. Realmente, sentimo-nos aparvalhados, pasmados.
lelos. lelos. lêlo.
lê-lo: o mar.
laxe é lage, pedra plana, escrita.
lelos é o diminutivo de quem
enlouqueceu de azul.
Está claro como a amanhã dos muros, um branco de cal que o Verão abre por dentro, ainda com a frescura nocturna presa na pedra; a luz fica ali, lisa, sem aresta, e o calor sobe da terra, lento e branco, com o cheiro a poeira e mar, e tudo pára num silêncio de cigarras, tudo tão nítido e tão quieto que o próprio tempo parece ter-se sentado um pouco à sombra para não o estragar e, por um momento, se lembrasse de si próprio.
Mas a quietude na Costa da Morte dura o tempo de uma faísca no cilindro. A terra treme sob o pneu quando o motor acorda, sacudindo a cal e a caruma, e a estrada racha de novo o espaço para nos empurrar contra o vento. Há sempre um dilema entre a poesia e a autópsia diante do mar: a paisagem trava a palavra e deixa-nos, no seu espanto, literalmente lelos. A linguagem, ao nomear as enseadas, os faróis e as praias desta costa, confunde-se com a própria matéria dos séculos e com a substância dos dias de um viajante.
Há uma sabedoria antiga, transmitida por gerações de marinheiros, na forma como o povo sedimenta a história sobre os lugares; o termo “Los Lelos”, por exemplo, atravessou o tempo com essa ironia nortenha que significa “Os Pasmados” ou “Os Atónitos”. São rochedos imensos, gigantes de pedra que a memória transformou em guardiões petrificados, e que continuam a olhar o mar fixamente, sem reacção, parvos há séculos perante o fulgor indomável e a força cega do Atlântico. Este efeito descreve perfeitamente o estado em que ficamos perante a crueza desta paisagem — em silêncio, de boca aberta, “lelos” com a força do vento e o bater do marulho. É precisamente neste cenário de assombro que se ergue um dos lugares mais fustigados e dramáticos da região.
Cabo Trece. A terra, aqui, acaba humilhada de joelhos, rendida ao vento. No alto, o farol velho do Vilán — já sem luz — permanece como um romano destituído, que continua a vigiar o mar depois do império ter acabado. E ali ao lado, sob a erva rala, a terra ainda guarda, com a paciência de um arquivista, os nomes que o Inverno de 1890 lhe deixou. Afinal, a Costa da Morte é este pacto cego entre a terra e a água. O mar consome os navios e a história; à terra compete a paciência de continuar a ser pedra, exposta ao vento, guardando a cinza e o rumor dos séculos.
Muxía. A lição da pedra.
O asfalto desiste antes do mar. Acaba num contorno cinzento, uma barreira de areia e gravilha que diz ao pneu: daqui não passas. Desligo o motor. O silêncio que se instala não é paz; é o som do vento da falésia a raspar na viseira do capacete, a limpar os restos do ruído que a rota deixou na minha cabeça.
Aqui, o monólogo antigo recomeça mais alto. Desço da mota. O encaixe da prótese estala ao pisar o granito irregular. Diante de mim, os homens ergueram um santuário de pedra contra as ondas, mas a verdadeira liturgia está mais abaixo, na rocha nua. A Pedra de Abalar (A Ferida). Uma massa cinzenta de toneladas que oscila com o vento ou com o toque leve de uma mão humana. Um milagre de equilíbrio geométrico que goza com a nossa necessidade de solidez.
Apoio o meu pé de ferro no granito imóvel e estendo a mão para tocar a pedra que oscila. Percebo então a ironia: eu, que precisei de titânio e parafusos para voltar a ficar direito na estrada, estou diante de um calhau imenso que se mantém vivo porque sabe balançar sem cair.
Não há mais para onde acelerar. O caminho dos faróis trouxe-me a este limite onde a mecânica humana e a geologia sagrada se olham de frente. Olho para a pedra que abala e para a perna que me segura. Duas formas de resistir à queda.
É a concha que te salvou a cabeça, o tecto que ficou contigo quando perdeste uma parte do corpo.
pedra. ferida. peso.
o vento vem do mar e não pára. o caminho
é de pedra lajeada, gasta, e leva a lado
nenhum – só o mar, sempre o mar.
em baixo, a igreja. dois sinos,
nenhum toca.
o mar todo – marulho marulho – o azul a
bater na pedra, a pedra a erguer-se como
uma deusa magra, vertical, e em baixo
o santuário da virxe da barca, tão côr de terra,
tão mãe.
e o vento: língua áspera a lamber os muros,
as lajes, a mota parada, tão gasta de
mapas – e eu, que vou de pedra para
pedra, de nome para nome, até que a boca
se me encha de atlântico.
porque tudo é mar, meu deus, tudo é mar
por dentro.
quatrocentas toneladas de granito erguido contra o
vento de muxia. onze metros de altura
cortados a meio – golpe, vulva, boca
negra.

prestige: o nome do óleo. 2002. o mar
fez-se boca preta e vomitou a noite sobre a
costa da morte.
bañuelos – mãos de burgos – abriu a
pedra. não esculpiu: feriu. deixou a luz por
dentro para que a pedra sangrasse.
ao lado, a virxe da barca ardeu e voltou. as
pedras pagãs – abalar, a pedra dos cadrís – tremem
ainda. o povo veio limpar o mar com as
mãos. mãos. sempre as mãos contra o
abismo.
pedra partida. mar partido. homem partido.
aqui está,
entre o santuário e o vento,
para que a dor não seja esquecida
e a luz entre, ainda,
pela fenda.
Cemitério dos Ingleses.
O farol Vilán.
Pedra acesa.
vento que não – que não cessa.
a morte é uma costa, costa da morte, e
a costa morde.
ali: cruz. cruz fincada na pedra viva, no
granito molhado. não são cruzes, é uma só,
mas são cento e setenta e três corpos
ingleses. ser- pente. serpent. o nome do navio que o
mar comeu em 1890. três vivos. cento e
setenta e três mortos. o mar devolve, a terra
guarda.
tu passaste de mota. o motor quente contra
o vento frio do atlântico. praia do trece ao lado,
areia branca, água fria, azul que dói. cinquenta e cinco quilómetros
de luz, a dizer: aqui não. aqui
morre-se.
a erva rala. as pedras. o muro baixo. o
cemitério sem flores. só vento. só sal.
entre o farol e as campas,
só o mar respira.
e o farol – sempre o farol - a girar sobre
os mortos ingleses, como um deus eléctrico,
o primeiro de espanha, cento e vinte e cinco metros de
altura, luz, luz, luz sobre os que já não
precisam de luz.
aqui não há ciprestes.
só granito,
tojo,
e o vento a soletrar nomes ingleses.
a morte é branca,
como o osso lavado pelo mar.

Farol do Cabo Touriñán. Pedra luz, farol-faca cravada no fim do mundo, três quilómetros de mar que são três quilómetros de sangue aberto, e eu, a carne toda a vibrar. A ir. É o ponto mais ocidental da Espanha peninsular — e onde o sol se põe por último na Europa.
E tu chegas aqui de mota, com o capacete ainda a zumbir, e percebes que fizeste o mesmo que o faroleiro: atravessaste o vento e a estrada não para chegar, mas para te colocares exactamente no sítio onde já não há estrada. Os três quilómetros de mar que entra pela ria são o mundo a entrar por ti adentro quando finalmente páras.
O Cabo Touriñán é a prova de que o homem aprendeu a negociar com o fim. Esta torre não ilumina nada — o oceano continua igual, cego e enorme —, ela apenas diz: até aqui chegámos, daqui para a frente, inventa.
A sensação que tens não dá para descrever o farol, mas para o desmontar pela língua. Pô-lo como corpo dentro da paisagem. Não há cá "vejo o farol"; é o farol a entrar-me pelos olhos, pela garganta, pelo sangue.
Sim, dá vontade de inventar neologismos, arcaísmos, torcer a palavra até ela sangrar — juntar o latim com o calão, com o grito. Fazer da língua matéria-prima obsessiva: a morte, o amor, o esperma, as estrelas, Deus, a faca. Tudo ao mesmo tempo. Dar-lhe ritmo físico. E ler isto alto, a parecer que estás a andar de mota sem travões.
Fazer disto um jorro, um excesso, um excesso que é a única forma de ser fiel à Costa da Morte. Porque a Costa da Morte não é minimalista. É excessiva. A estrada morre aqui porque se assusta com o mar. O asfalto acaba, abrupto, como uma cicatriz preta que desiste perante o azul cinzento que não tem fim. Tu largas os travões, mas o corpo continua a andar à velocidade do motor. A vibração não sai dos ossos.
O farol não é um monumento; é um prego espetado na bochecha da Europa. Não serve para guiar os barcos — serve para nos avisar a nós, ingénuos que por aqui andamos por terra, que a brincadeira dos homens acabou. Daqui para a frente é o infinito cego, a massa líquida que engole a luz e cospe espuma. A torre branca está ali a fazer finca-pé contra o vento galego, um farrapo de teimosia humana a gritar ao oceano: “podes ser Deus, mas eu ainda aqui estou de pé”.
A Costa da Morte exige este excesso, não vieste para a Comporta ou para a Fuseta estender a toalha. Exige que mastigues a língua, que a cuspas, que a mistures com o sal e o óleo do motor. Esquece a literatura de guardanapo ou rezas de sacristia. Esquece a sintaxe higienizada. A falésia não negoceia com eufemismos. Aqui a língua não se limpa ao avental; ou mordes o sal ou engoles o grito. É preciso o latim dos mortos e o vernáculo do marujo. É preciso rasgar a garganta.
Toma lá o coice da luz, a única coisa real aqui é o coice do vento e o motor a arrefecer, como quem entra num bar de alterne à procura da saída de emergência. Sem palmadinhas nas costas, só aguentar o vazio que vem a seguir ao fim da estrada.
touriñan.
vento. pedra.
torre branca –
o homem, não.
luz
que insiste.
deus
que não.
Finisterra.
Chegaste ao lugar onde a terra desiste. Não há mais nada para lá do azul, e por isso tudo aqui é mais nítido. O banco das letras não é para fotografar, é para o sol pousar. Os capacetes parecem abandonados, mas não. Estão a descansar, como animais mansos depois de muito caminho. O mar é redondo como uma baía, um mar que abraça em vez de bater. O que importa é que vieste até ao fim e descobriste que o fim é uma luz muito limpa, quase branca, onde finalmente se pode estar quieto.
Ainda mais baixo, quase só para mim:
goza isto. dá um mergulho.
deixa o vento levar o nome das coisas.
quando voltares a pegar no capacete,
o mundo já não será tão largo.
só isto: o mar respira por ti.

O Km 0,000 é uma mentira bonita.
Não há quilómetro zero na vida. Chegas ao Fim da Terra, ao Finis Terrae, onde os romanos achavam que o mundo acabava, e o que encontras não é o fim. É um marco de pedra com uma vieira amarela. Durante todo o caminho da tua vida andas a contar – quantos quilómetros fizeste, quantas dores, quantas subidas. E de repente chegas ao ponto onde o mapa diz “0”. Zero. Nada. O vazio.
Mas é aí que se dá o estalo. Rompe-se o Finisterra do Oliveira, a cal e o vento de outra areia, para o mundo se apear da mesma forma, até restar apenas o esqueleto do dia, limpo até à raiz da pedra. E este fim passa a ser o único lugar onde já não há mais bagagem para carregar, mas o único sítio onde consegues começar sem bagagem. Pões o joelho no chão. Não por cansaço, mas por reverência ao chão que pisas.
De capacete na mão, ou melhor, na cabeça ainda — porque quem anda de mota sabe que nunca se chega a lado nenhum, só se faz uma pausa para ganhar fôlego para o que vem a seguir. Ao lado, esse marco não sepulta a viagem; abre-a. É o ponto onde todas as direcções voltam a ser possíveis. Atrás de mim, o continente inteiro. À minha frente, só oceano. Não há mais estrada. Só há horizonte. Os peregrinos antigos queimavam a roupa em Finisterra. Não era para acabar. Era para garantir que o homem velho não regressava a casa na mesma pele.
O Quilómetro Zero não te pergunta quanto andaste. Pergunta-te: o que é que deixaste pelo caminho para chegar aqui tão leve? E tu, e tu que sabes melhor que ninguém o que é reconstruir um passo, sabes que nenhum quilómetro é perdido. Até os que fazemos a coxear, até os que fazemos com ajuda de ferro e vontade, contam. No Fim da Terra, a terra nunca acaba. Nós é que paramos.
despidos de rotas.
entregues apenas ao peso do sol.

Miradoiro da Furna do Sapo
Este é um daqueles amarelos que morde — que não ilumina, morde, e só acontece quando o rio traz terra doce e o mar traz sal e o ar fica com aquela poeira suspensa. Não é o amarelo limpo do Algarve. É um amarelo sujo, espesso, mastigável. A nossa vista gasta-se por acumulação. Mas onde ele morde mesmo é sempre no mesmo tipo de sítio: na foz do Mondego em dias de leste, quando o arrozal devolve a luz. Na Ria Formosa em Setembro, quando a água está baixa e a lama fica a brilhar como metal. No Cabo Sardão, lá em cima, quando o sol cai atrás do mar e parece que vai incendiar as cegonhas.
Mas este amarelo de mel azedo, de manteiga queimada, é o da Costa da Morte. Só aqui é que o sol tem de atravessar tanta humidade, tanto pó de pinheiro, tanta maresia, que quando chega cá abaixo já vem cansado, grosso, e morde em vez de beijar. Entra-te pelos olhos e fica. E por isso esperas, todos os dias, pelo fim da tarde. Para seres mordido por ele, olhando para a luz como quem abre um diário tirado de um bolso queimado: a nossa juventude na Henrique Sommer, à imagem d'Os Marginais de Coppola.
Nem aquilo era um filme de gangs, nem nós éramos um gang, apesar de nos autointitularmos vândalos. Era só a primeira vez que percebíamos o óbvio: o mundo já nos tinha dividido muito antes de sabermos o nosso próprio nome. De um lado os Greasers, cabelo com brilhantina e camisas herdadas de um irmão mais velho. Do outro, os Socs, com os carros e as roupas pagas pelos pais. A mesma cidade. Duas mitologias. Coppola não filmou Tulsa, em Oklahoma. Filmou o mapa antigo do mundo: Atenas e Esparta, Abel e Caim, mas com dezasseis anos e cigarros escondidos nos bolsos.
No Pátio do Jordão fizemos o funeral daquele cão vadio. Cheirava a óleo queimado e a limalhas. Cavámos a terra dura com ferro sob sol de chapa. Sem discursos, sem lágrimas. Apenas o silêncio de quem enterra uma parte de si na berma do recreio. A nossa primeira trincheira contra a indiferença.
Ponyboy era o rapaz que lia, que via pores-do-sol e sentia vergonha de o confessar aos outros. O filósofo metido no meio dos guerreiros, cercado pela única pergunta que conta: como continuar puro num mundo que exige que sejas duro para sobreviver? Coppola responde com uma frase roubada a Robert Frost, que o filme repete como uma oração: “Nada de ouro pode permanecer.”
O ouro é aquela lucidez dourada da adolescência em que acreditamos que a amizade salva, que um crepúsculo visto por duas pessoas diferentes continua a ser o mesmo crepúsculo. Johnny, o mais frágil de todos, dita o mandamento impossível antes de morrer: stay gold. Permanece ouro. Não é um conselho, é um mandamento impossível. Como permanecer ouro num mundo que tudo oxida?
Os vândalos e os marginais não eram perigosos pela violência. Eram marginais porque recusavam murchar depressa. Viviam numa fraternidade monástica, como na casa dos irmãos Curtis, onde não havia pais, o amor não se diz e a sobrevivência defende-se à faca. A pólis grega dos deserdados.
Toju, o vento, a poeira. A nossa juventude. Tudo aquilo foi filmado com uma luz de entardecer perpétuo. Aquela fotografia alaranjada, excessiva, é a forma exacta como nos lembramos da Henrique Sommer: tudo era mais dourado, mais definitivo, mais contrastado. Cada luta era para sempre. Cada morte era a primeira morte no mundo. Mesmo a daquele cão de que perdi o nome, foi a infância a aprender a cavar a terra.
No fim, percebe-se que Socs e Greasers choram pelo mesmo desamparo. A violência não faz os homens. O que os salva é a capacidade de contar a história. De escrever a redacção. De transformar o murro em palavra escrita, a renascer em linha de leitura na única ordem possível — que escolhe dar corpo e narrativa à sua própria dor. Só a poesia — em poema arrancado à névoa, um amarelo descrito antes que se apague — impede que nos tornemos marginais de nós próprios.
o mundo dividiu-nos
antes do nome.
antes da voz.
o pôr-do-sol demorava-se
nos nossos ombros.
era um lume excessivo,
quase falso,
alaranjado até à dor.
tardava no cabelo,
na ganga gasta,
na poeira.
um oiro que não sabe
ficar.
e eles olhavam,
com o pouco que sabiam do mundo,
para aquela ferida acesa
que é comum aos dois lados da rua.
fica, diz um deles,
com a morte nos lábios.
fica oiro,
e o sol vai,
como tudo o que é puro.
O sol foi. Arrancamos na penumbra que a rocha gela. Agora a estrada é uma veia escura que o farol da mota morde com pressa, e o continente inteiro deita-se à nossa direita enquanto o mar, à esquerda, passa a ser só um rumor invisível e cego. O Guilherme vai atrás de mim, os dois a oscilar na mesma curva, fechados no mesmo silêncio. Mas cá dentro, no osso do capacete, onde o vento limpa os restos do dia, há uma melodia que começa a bater contra a viseira. Uma linha de baixo circular, teimosa, mecânica, que compassa com a rotação do motor no regresso a casa. Não é música de fundo; é o monólogo eléctrico que nos sobra quando a luz se apaga.
Esta última nota é uma canção sobre o fim. Sunset, dos Pulp. O último acorde que se apaga, antes de ser cobrado o preço. Não sobre um fim trágico. Sobre um fim que se tornou um bilhete.
A letra começa com um homem sem escolha em frente de um menu. É a nossa condição actual: tudo é oferta, nada é dádiva. Durante milénios, o pôr-do-sol foi a única coisa que o homem não pôde cercar. Podia-se cercar a terra, a água, o corpo. Mas a luz que morre no horizonte era de todos e de ninguém. Era o comum absoluto. A canção dos Pulp anuncia o fim desse comum.
O que o Jarvis Cocker viu — e por isso a canção magoa — é que o capitalismo tardio já não precisa de produzir coisas. Basta-lhe cobrar a entrada para o que já existe. O céu acende-se e a multidão aplaude, como se deus fosse um artista contratado para a festa. O sublime tornou-se espectáculo. E todo o espectáculo, como bem sabia Debord, cobra bilhete.
Há aqui uma inversão cruel da teologia. Outrora o homem olhava o crepúsculo e sentia a sua pequenez diante do infinito. Agora olha o crepúsculo através de um ecrã e sente a frustração de o infinito não ter resolução de imagem suficiente. “Fui ver a Aurora Boreal, mas estava pálida e fraca, não era como o anúncio”. Eis o último homem de Nietzsche: órfão do real porque o real não cumpre o que o prospecto promete.
Por isso a frase mais dura da canção não é poética. É económica. “Gente infeliz gasta mais”. É a primeira regra de uma Religião Nova. A tristeza como motor. Se tu fosses feliz, não precisarias de comprar o pôr-do-sol. Ficarias à janela e bastava. Mas como há em ti um vazio, tu pagas. Pagas para sentir o que antes era de graça. A infelicidade é a matéria-prima mais rentável do século.
E no fim, o que resta? A voz que queria ensinar o mundo a cantar admite que não tem voz. É de uma humildade esmagadora. O cantor pop, o sedutor de há trinta anos, o homem que fez de “Common People” um hino, agora diz: não sei cantar, não sei salvar. Só gostava de comprar ao mundo algum tempo. Não a eternidade. Só tempo. E escolha.
“Tempo e escolha” — as duas últimas palavras da canção. Não o amor, não o dinheiro, não a fama. Tempo e escolha. O que nos foi roubado com a promessa de nos dar tudo. “A Sunset” é, por isso, uma oração ateia. Não pede a Deus que o sol não morra. Pede apenas que nos deixem vê-lo morrer sem ter de pagar por isso.
Pagamos com tudo, excepto com atenção. E é por isso que já não vemos.
Em termos literais, pagamos a deslocação (o pôr-do-sol na tua rua já não serve, tem de ser o de Santorini, o de Bali, o do deserto do Saara, o da Costa da Morte; pagas a moldura cara onde achas que o sol fica mais bonito); pagamos o acesso (em Lisboa pagas o copo no bar do miradouro para ter direito à cadeira, no Algarve a espreguiçadeira, a vista tornou-se propriedade privada); pagamos o equipamento (o telemóvel de mil e duzentos euros, o filtro, o anel de luz para registar).
Mas o pagamento mais fundo não é em euros. Pagamos com dados, vendendo a nossa intimidade e localização ao algoritmo. Pagamos com tempo futuro, gastando uma hora a escolher a fotografia e a editar a legenda em vez de olhar para a luz. Pagamos com ansiedade, porque se o crepúsculo de hoje não for tão bom como o do ecrã alheio no Instagram, a beleza deixa de ser consolo e passa a ser comparação. É uma taxa emocional.
No fim, o verso “quanto gastaste, ao certo?”, não é sobre dinheiro. É sobre quanto de ti deste para ter direito a algo que o teu avô teve de graça, na porta de casa, sem bilhete, sem foto, sem legenda. Só com os olhos.
Costa da Morte, 2026.