Opinião
De pé com as mãos | A amputação do tempo: o futuro feito em cinzas
A geopolítica não passa disto: uma vala comum onde a nossa única preocupação é saber se o sangue dos inocentes não nos vai manchar a camisa

Tenho na minha posse uma água-forte de Gisèle Celan-Lestrange — um conjunto de manchas abstratas que ilustra uma plaqueta de Poemas de Paul Celan, editada pela Editorial Inova. Talvez nada faça tanta justiça à mudez da linguagem do poeta como essa ausência de figuração. Contudo, confrontado com o massacre do presente, a própria mancha pareceu-me um excesso, um luxo interpretativo que a crueza do real já não comporta.
Exigiu-se-me por isso um despojamento ainda mais radical para um desenho figurativo ao deixar parte da composição em branco. Este espaço vazio não procura a beleza do nada nem a harmonia do contexto; não é um exercício de estetização da dor, mas o resultado físico daquela gaguez de que falava Celan.
Quando o traço desiste de dar contorno à infância mutilada e à derrocada do mundo, a ideia foi fazer com que o branco assumisse o peso do testemunho. É uma marca crua, por assim dizer, sem artifícios além da urgência do grafite que se calou: uma criança amputada que serve de escora à sobrevivência de outra, num prédio cuja queda já nem a cor consegue assinalar. Este silêncio do papel não embeleza o trauma; limita-se a fixar o estilhaço da realidade antes que o silêncio da desumanização nos soterre.
E é este mesmo vazio gráfico que se agiganta quando a abstração do silêncio é confrontada com a aritmética fria e monstruosa da burocracia internacional. A catástrofe humana e o colapso de a representarmos através da linguagem encontram no tempo presente o mesmo eco de horror que outrora paralisou a Europa do pós-guerra. O novo relatório da Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU, publicado a 23 de Junho de 2026 sob o título «A essência da infância foi destruída», expõe uma realidade arrasadora: a morte documentada de pelo menos 20.179 crianças em Gaza, entre Outubro de 2023 e Outubro de 2025. Diante destes números que denunciam o esmagamento deliberado do futuro de um povo, a nossa consciência depara-se, novamente, com o limite do que pode ser articulado por palavras.
É precisamente nesta fronteira, onde a estatística falha a traduzir a dor e a história sangra, que a literatura é convocada a responder. Se nos limitássemos a evocar o célebre veredicto de Theodor W. Adorno — para quem escrever poesia após Auschwitz constituía um acto de barbárie —, inquinávamos de tal forma as águas da linguagem que esgotávamos, à partida, quaisquer possibilidades de representação literária do trauma. A interdição do filósofo parecia condenar a arte ao silêncio. Contudo, calar a palavra perante o horror significaria deixar que o rio da memória secasse, sepultado sob o lodo do esquecimento.
No entanto, houve quem fizesse da própria impossibilidade o seu território. Paul Celan respondeu a Adorno não com a mudez absoluta, mas com uma língua desértica e esvaziada de ornamentos, pois provou que a poesia permanecia como o único testemunho possível. Ao fazê-lo, enfrentou o paradoxo mais violento da literatura moderna: a necessidade de testemunhar o horror da Shoah através do alemão — a língua materna que a mãe lhe transmitira, mas que se tornara, simultaneamente, o idioma dos assassinos dos seus pais.
E para tornar essa língua habitável e ser capaz de dizer o indizível, Celan não a embelezou; respondeu com uma granada nas mãos à qual nenhuma gramática podia dar voz, nem nenhum dicionário a podia traduzir: fez de cada palavra um estilhaço, mutilou-a, fragmentou-a e implodiu-a por dentro. A poética do trauma de Celan mais não fez que rebentar-nos a consciência: o seu discurso é, paradoxalmente, de uma beleza antipoética, cuja recusa do paleio consolador está em total ruptura com a actual poesia do odioso “eu” em forma de desabafo.
Celan discordou profundamente da “bela poesia” e do lirismo tradicional, pois via nisso a cumplicidade com um esquecimento anestesiante. A linguagem e, consequentemente, a poesia contemporânea continuam a bater na parede erguida por Celan. Celan levou a palavra ao ponto exacto onde ela quase deixa de ser linguagem e se torna pura matéria ferida, o que nos força a ler não as palavras, mas as suas cinzas. Depois dele, qualquer tentativa de estetizar a dor extrema soa-nos a artificialidade barata ou a ingenuidade.
Portanto, a linguagem, neste momento, regrediu de tal modo a um estado de gaguez, que as vozes destas milhares vítimas foram privadas da própria articulação humana; o trauma transformou-se numa marca verbal que se fecha e se recusa a ser “digerido” pelo leitor. Mas isto rasga-me de tal modo os nervos do sensível e, como não tenho o estofo literário de Celan, nem ombros para me medir em trauma com ele, só me resta recolher os estilhaços dessa língua rebentada e caminhar pelo território minado da memória. É que esta gaguez literária não é um exercício de estilo; é o eco de uma interrupção brutal, onde a abstração poética da dor embate, de frente, com a crueza de uma mesa onde a morte se serve ao quilo.
Há sítios onde a geopolítica se discute entre pratos de cozinha gourmet e outros onde ela se escreve com carne picada no chão. Transformámos Gaza nisto: um laboratório de alta cozinha do alheamento, onde pesamos a vida humana ao quilo e o amanhã é um luxo que já não se serve à mesa. O horror reiterado tornou-se o nosso prato principal: comemo-lo à força até que o corpo já só saiba digerir sangue. Não perdemos só a cabeça; perdemos o estômago. A dieta da diplomacia internacional já não constitui um erro de cálculo; é uma cumplicidade feita de alimentos deteriorados.
Agora engolimos as tripas dos outros sem mastigar, com o mesmo enfado com que se limpa a gordura de uma bancada de talho. A verdade é esta e o cheiro é fétido: transformámo-nos nuns porcos a ver o matadouro pela televisão, com o queixo a pingar a banha do nosso ranço. Não há cá moral, não há cá deuses, nem dentes para mastigar — já estão partidos. Deixemo-nos de coisas e de sacudir as cinzas dos mortos no tapete da sala. Olhemos para o prato. A geopolítica não passa disto: uma vala comum onde a nossa única preocupação é saber se o sangue dos inocentes não nos vai manchar a camisa.
Esfregamos o estômago, limpamos a boca à manga e deixamos subir o esgoto do que foi engolido. O que nos resta é um arroto azedo, pesado, com sabor a ferro e a carne pisada. À medida que os meses correm e os relatórios oficiais empilham números absurdos, percebemos que o colapso não é de um território; é da nossa própria pele. Deixámos de ser espectadores de uma guerra para sermos os fiadores de um matadouro. É o momento exacto em que assinamos a autorização para que o futuro seja fuzilado no ventre, com o carimbo do direito internacional.
Atrás deste esgoto que engolimos, esconde-se a frieza teórica da pólis. Sob a lição de Carl von Clausewitz, a guerra surge como «a continuação da política por outros meios» — um instrumento que utiliza a violência e a força para alcançar os objectivos que a diplomacia ou a negociação não puderam atingir. A lógica do conflito liga-se à política, e a violência é apenas o meio adoptado para implementar desígnios maiores.
Contudo, a realidade no terreno destrói qualquer acção académica. Ora, andar a cavar a terra depois de quase oito décadas sem descanso não é só quebrar os rins — é, sobretudo, partir a cabeça para se saber se vale a pena quebrá-los. Por conseguinte, o chamado «Plano de Paz» para Gaza não trouxe solução alguma. Em nenhum sentido.
Este activismo de consumo em torno de Gaza falha em dois pontos simples: esquecemos que ali se resiste contra a força e a violência, e agimos como se implorássemos a quem tem o poder. Negociamos com quem esmaga, fazemos exigências de papel timbrado, quando o dever seria o de amparar e apoiar quem resiste no terreno. Exigimos o reconhecimento do Estado da Palestina, mas substituir a crítica real pela ilusão da papelada sobre uma soberania simulada é a coisificação do oprimido.
Mais então a Palestina não foi já reconhecida por 151 dos 193 Estados-membros da ONU? E de que adiantou? Cisjordânia, Jerusalém Oriental, Faixa de Gaza, Colinas de Golã, Fazendas de Shebaa — tudo territórios ocupados por Israel. Mesmo os Acórdãos de Oslo são a definição de um não-estado: uma não-soberania, sem aeroportos, sem autonomia política, sem independência militar e com a autoridade daquele povo reduzida a uma força policial externa.
Os Acórdãos de Oslo pavimentaram o caminho para o cenário actual, onde a soberania é substituída por decretos de segregação. A recente produção legislativa do governo de Israel traduz a institucionalização de um regime de segregação institucional: a codificação jurídica da separação geográfica e da exclusão social que já se faziam sentir no terreno. O direito converte-se, assim, numa arma de demarcação existencial. Só acordámos para a questão palestiniana com o 7 de Outubro, o que nos isenta, enquanto sociedade, da realidade histórica.
Afinal, a amnésia colectiva faz-nos esquecer que o próprio monstro foi alimentado nas sombras. Israel, a partir da velha ideia de “dividir para reinar”, financiou outrora o Hamas para enfraquer a Autoridade Palestiniana liderada pela Fatah. Bebeu-lhe o veneno. Israel, tantas vezes aclamado como a única democracia no Médio Oriente, ergueu-se como um etno-Estado cuja arquitectura demográfica e segregacionista o converte, na prática, num regime de Apartheid.
É que este talho a céu aberto não se faz sem folhas de cálculo. A carne picada no chão, que mastigamos com enfado diante do ecrã, é o produto final de uma engenharia asséptica, cozinhada em gabinetes onde o sangue não mancha a alcatifa. Passamos da barbárie do balcão à frieza dos números: a morte ao quilo transforma-se em “ajuste demográfico” e o fétido cheiro dos corpos é neutralizado pelo verniz do direito internacional.
No momento em que a bota esmaga o crânio, o ruído é o mesmo que o do carimbo oficial que autoriza o abate. A violência, quando se torna sistemática, deixa de ser um excesso de fúria e passa a ser uma burocracia do extermínio — uma operação cirúrgica desenhada para amputar não apenas o espaço, mas o próprio tempo. O sofrimento converte-se, assim, numa mercadoria.
Desta forma, assiste-se a uma autêntica mercantilização do sofrimento, com o objectivo de limpar a nossa consciência: a tragédia humana é convertida no activo financeiro que precede a reabilitação urbana. O martírio actua aqui como a demolição prévia e necessária para o investimento; o sangue limpa o terreno para o betão. Sob o pretexto da reconstrução, o horror é capitalizado para que, amanhã, sobre as valas comuns e o entulho, se ergam os hotéis de luxo e as marinas de uma simulada Riviera do Médio Oriente.
É neste ponto que a história convoca o espectro mais sombrio da modernidade ocidental: a «Solução Final» adoptada pelo regime nazi em 1942. O plano do Terceiro Reich para o extermínio sistemático, industrializado e burocrático de toda a população judaica europeia representou o cume da desumanização, ao converter o aparelho de Estado numa máquina de moer carne e de apagar a existência biológica de um povo.
O antagonismo radical e a contradição moral deste paralelo histórico residem no facto de o próprio Estado de Israel ter sido fundado sob o imperativo moral do “Nunca Mais”, como um refúgio seguro para os sobreviventes desse mesmo horror. Do ponto de vista psicológico, este cenário fornece uma perspectiva sobre o fenómeno da transferência e repetição do trauma: quando um trauma colectivo de proporções apocalípticas não é elaborado, a psique dos sobreviventes e das gerações subsequentes pode, num mecanismo de defesa, internalizar o papel do agressor.
Para afastar o fantasma da própria aniquilação, o outrora oprimido actua através da mesma lógica de exclusão, confinamento e desumanização de que foi vítima, com a consequência de transferir a ferida original para o corpo de outro povo inocente e perpetuar o ciclo da barbárie.
Este esmagamento psicológico e físico gera, inevitavelmente, uma força de sinal contrário: a violência da opressão dita as regras e a linguagem da reacção. A política de resistência palestiniana tem tantos anos como a ocupação, como é evidente. Se aquele povo recusa desaparecer do mapa, a discussão sobre o seu direito à autodefesa armada é indissociável da história. A própria geopolítica ocidental está repleta de precedentes onde o fornecimento de armas a forças não-estatais foi legitimado em nome da libertação ou da conveniência estratégica — dos mujahedines no Afeganistão aos movimentos de emancipação africana.
Isolar o caso palestiniano não constitui um critério moral, é uma escolha de alinhamento político; com o risco histórico de, inevitavelmente, bebermos sempre a peçonha do remédio que outrora administrámos. Mas esses efeitos secundários serão sempre menores do que a toxicidade da actual circunstância; até porque, nesta paralisia cúmplice com o governo de Israel, o pior será sempre a inacção, sob pena de acabarmos por sucumbir à infecção que recusámos tratar.
Esta necessidade de redefinir o apoio encontra eco factual nos dados mais recentes da diplomacia internacional. A conclusão das investigações do relatório da ONU é inequívoca: os menores não são meras vítimas colaterais. Foram, sim, alvos de uma acção calculada para destruir a viabilidade futura do povo palestiniano, com ataques directos a grávidas, recém-nascidos e centros de saúde materna.
Que as Nações Unidas sirvam, ao menos, para este macabro inventário: catalogar a bestialidade humana e expor a nudez do rei diante do mundo. Já que a diplomacia internacional actua da forma que sabemos para travar o horror, que funcione, pelo menos, como o escrivão oficial da barbárie. Se a ONU não consegue salvar uma única vida no terreno, que seja exacta na contagem dos cadáveres e registe meticulosamente a carnificina, de modo a que a indiferença não decore o genocídio com o verniz do silêncio.
Quando a violência escolhe como alvo a própria biologia do amanhã, a geopolítica deixa de ser uma disputa de fronteiras e passa a ser uma fractura ontológica. Esta aniquilação demográfica — um ataque frontal à natalidade — desloca o eixo do conflito da premissa da legítima defesa para a urgência da responsabilização por crimes internacionais.
Este cenário convoca imediatamente o pensamento filosófico de Hannah Arendt. A sua recusa absoluta de um Estado-nação assente na exclusão encontrava alicerces já na sua tese de doutoramento, O Conceito de Amor em Santo Agostinho (Instituto Piaget, 1997), onde recupera a premissa de que, «para que houvesse um início, o homem foi criado, antes do qual ninguém existia». É esta raiz ontológica que dá origem ao seu conceito de Natalidade, mais tarde desenvolvido em A Condição Humana (Relógio D'Água, 2001). Segundo a sua formulação, cada nascimento transporta em si a promessa de um recomeço e de um novo rumo para o mundo.
Ora, ao visar deliberadamente crianças e grávidas, a acção militar mutila a própria raiz da renovação humana. Isto não extingue apenas o presente: destrói o próprio conceito de «vir-a-ser». É a manifestação inequívoca da necropolítica descrita por Achille Mbembe, conceito onde o Estado exerce soberanamente o poder de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Mais do que deter o monopólio da violência legítima, o poder soberano converte-se na gestão deliberada da morte e na subjugação da vida ao poder da destruição. O foco cirúrgico na infância traduz-se numa gestão da morte com o propósito específico de impedir a reprodução biológica e social de um povo inteiro.
Eis a infame justiça da Lei de Talião, refinada pela modernidade: em Gaza, o «olho por olho» já não basta. A nova equação exige que, para saldar o presente, se mutile preventivamente o útero. É a vingança erguida a engenharia demográfica: cega-se o amanhã antes mesmo que ele ouse abrir os olhos, ao assassinar o vir-a-ser na raiz do ventre que o carrega.
Não se trata apenas de ceifar vidas; trata-se de amputar o próprio tempo e transformar berços em cinzas. É o acto supremo de rasgar a página onde o futuro começaria a ser escrito; a condenação de um povo ao luto eterno daquilo que nunca chegará a ser.
No final, longe dos gabinetes onde se carimbam os relatórios e das salas onde se janta em demente convivialidade, a geopolítica reduz-se à sua expressão animalesca. A imagem que nos fica é a de uma bota que esmaga um crânio que ainda cheira a leite materno, ao passo que a terra engole a última gota de um sangue que já não gerará qualquer linhagem. Não restará sequer a dignidade da tragédia; apenas o ruído seco dos ossos de uma geração inteira triturados sob os escombros e a certeza fétida de que, ao permitirmos este infanticídio planeado, fomos nós que puxámos o gatilho contra o próprio ventre da humanidade.
O amanhã morreu em Gaza e nós, com o queixo ainda sujo com a gordura do nosso alheamento, limitamo-nos a lamber os restos do entulho de cadáveres no fundo do prato. Talvez o único gesto digno que nos reste seja limpar a boca com um penso higiénico da nossa menstruação moral.