Opinião

CULTURA, UNIVER(CIDADE) E (DES)ENVOLVIMENTO – XXVI

1 mar 2017 00:00
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Ricardo Vieira, professor decano do Politécnico de Leiria

“Regiões de Leiria”, universidades, aeroportos, rodovias e ferrovias

De novo a “região” de Leiria a querer afirmar-se como um coletivo forte, reivindicando um aeroporto civil em Monte Real. Mas o facto é que, até hoje (28 de fevereiro de 2017), apenas 882 cidadãos assinaram a petição. 

E de novo a constatação: a “região” de Leiria é uma manta de retalhos, talvez uma manta de “regiões” sem uma liderança institucional e sem uma população que se reveja nos principais projetos que aqui e ali vão sendo reivindicados para uma região que se afirma forte mas que, depois, não sai do ventre materno.

Foi assim com o aeroporto nacional que se sonhou ter na Ota; foi assim com o sonho do TGV, comboio rápido que tanto poderia passar a leste como a oeste da serra dos candeeiros. Mas, efetivamente, uma estação em Leiria só se justificaria se a cidade do Lis se juntasse com a de Pombal obtendo massa crítica por forma a justificar uma grande gare intermodal que servisse os dois municípios, entre outros.

Deixou se ouvir falar do TGV e a dúvida manteve-se, uma vez mais. Na ligação entre as duas capitais do país, voltaram a repetir-se as dúvidas do século XIX: de Lisboa para o Porto deverá a linha férrea principal passar a Leste ou a Oeste da Serra dos Candeeiros? 

Tem sido, também, de altos e baixos, a reivindicação da modernização da linha do Oeste e eventual ligação à linha do Norte, para tecer as linhas da região com artérias rodoviárias ligadas às “coronárias” A1, A8 e A17.

Nada. Nada de novo, a não ser o desejo passional. O sonho dura pouco mais que uma noite. E a realidade concretizada, bem como os projetos de um futuro antecipado, obrigam a uma mediação comunitária integrada, a longo prazo, a um querer e um crer persistentes, e por isso poderosos, e num tempo e programas que ultrapassem as campanhas eleitorais e as fronteiras dos partidos políticos e afins.

O mesmo se tem passado com o sonho de ter uma universidade pública em Leiria. A escassa discussão não dura mais que uma noite ou o programa de uma candidatura. Depois, hiberna. E por isso não chega a haver espírito comunitário sobre a matéria que mal chega a ser discutida para além dos ditos e desditos do Sr. ministro da tutela, em conformidade estreita com o governo da nação. 

Mas tudo isto tem de ser pensado e reivindicado por todos. Não apenas por uma ilha do arquipélago da região.

E agora, de novo, e bem oportuno, a reivindicação de um aeroporto civil em Monte Real, que possa servir a “região” e servir de nó aglutinador de toda a rede geográfica e sociocultural. 

A partidarite é, na maior parte das vezes, um obstáculo à defesa das regiões. Os interesses das regiões não devem ter cor política.

E devem ser de ordem estrutural, não da mera conjuntura política. E devem ser estudados, apoiados e mediados pelas instituições de ensino e investigação superior da região que, no nosso caso, possui um mapa de intervenção que é o que mais se aproxima do da nova região dinâmica desenvolvida a partir do eixo  Pombal_Leiria_Marinha Grande_Fátima_Caldas da Rainha_Peniche, atravessado, idealmente, por boas acessibilidades a Monte Real, na senda de tornar o aeroporto militar não apenas civil para os Papas que visitam Fátima mas para toda uma região centro que se afirma distinta das de Lisboa,  Porto e seus arredores, e que busca a sua afirmação, (des)envolvimento e consequente sustentabilidade.

É assim que, ter uma universidade, um aeroporto, um TGV, uma linha férrea regional que sirva, efetivamente, para viajar mas não só em lazer, fazem parte de um único projeto: “Pensar a Região de Leiria”, título do livro que publicámos no ano de 2004, consequência do congresso, com o mesmo nome, organizado pelo CIID-IPLeiria (hoje CICS.NOVA.IPLeiria), a 24 e 25 de outubro de 2003.

Trata-se de uma reflexão alargada que está na hora de ser retomada por todos e mediada por um IPL que quer ser Univer(cidade) por mérito próprio.

*Professor Decano do Instituto Politécnico de Leiria
Professor Coordenador Principal
ESECS-IPLeiria e CICS.NOVA.IPLeiria

(O autor escreve segundo as regras do "Acordo" Ortográfico de 1990)