Opinião

Cinema | Solveig: Um segredo português

24 jan 2020 20:00

Tenho um segredo para vos contar: Solveig Nordlund, um caso 'sui generis' do cinema português.

Nascida na Suécia, o amor fê-la escolher Portugal como casa.

Afinou a veia fílmica com os cineastas portugueses do Cinema Novo Português e com o despontar da revolução de Abril começou a realizar filmes.

Nunca mais parou, sempre entre Suécia e Portugal. Mulher de duas culturas, duas nacionalidades, duas línguas.

Nordlund é um daqueles casos raros de uma mulher com um corpo de trabalho extenso como realizadora, do documentário à ficção, e no entanto, quem em Portugal conhece a sua obra?

Numa de várias conversas que tive com Nordlund, esta confessou-me que, dos filmes que realizou, um dos que considera mais relevantes é A Lei da Terra.

Este filme, de 1977, retrata a revolução, as lutas partidárias e as questões do género no Alentejo revolucionário com uma destreza e um sentido crítico extraordinários, conseguindo um olhar reflexivo no meio do turbilhão social e político.



Por sua vez, Dina e Django, de 1981, é um pulp fiction exuberante, no uso da cor, da música e do ritmo da montagem, para nos contar a história verídica de um casal de jovens que, no jeito de Bonnie and Clyde, fazem do crime a sua resposta ao capitalismo, acabando por assassinar um taxista – um filme sobre o declínio da revolução e a despolitização da juventude.

Mas esta despolitização já estava no ar quando Nordlund realizou, em 1978, Nem Pássaro nem Peixe, com um memorável Robert Kramer como protagonista.

Em Comédia Infantil, um filme de 1998, produzido por Henrique Espírito Santo, Nordlund ficciona a história das crianças moçambicanas, da beleza da sua essência infantil à tragédia da sua existência cicatrizada por uma guerra civil dilacerante.

Quem já viu este filme? E desta lista de filmes de Nordlund há que não esquecer Aparelho Voador a Baixa Altitude, de 2002. Um sci-fi baseado numa história de J. G. Ballard.

Um filme especial por tantos motivos. Nordlund filmou os empreendimentos turísticos da Torralta, em Tróia, antes de estes serem demolidos, num requiem belíssimo e melancólico a um espaço que seria destruído.

Os edifícios e as piscinas que vemos no filme, ícones de uma época, e de um pensar e estar em Portugal já se foi, foram destruídos por um capitalismo angustiante, sem rei nem roque.

São fantasmas que vivem graças a este filme, uma ficção que acaba por ser um importante registo histórico.

Ficção e realidade em compasso trágico e sublime: na ficção, a história de uma sociedade fanática que se condena à morte; na realidade, a morte de um espaço, da sua arquitectura, sob a espada do lucro.

E aqui deixei um pouco deste segredo, Nordlund; esta realizadora portuguesa e sueca que, como aquelas plantas das falésias, contra as expectativas, não parou de florescer.

Nordlund não pára de filmar e muito deste segredo ficou por contar.

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