Opinião
Cinema | O novo normal
Os cabos elétricos cruzam a estrada de muitas das ruas desta cidade e quem, longe daqui, conseguiu retomar a normalidade, prepara-se para instalar o esquecimento
Dizem-me que é tempo de voltar à normalidade; que o pior já passou e que, apesar dos escolhos, há que encontrar forma de fazer o luto e seguir em frente; que se impõe recuperar rotinas e ultrapassar o trauma. Parece que, uma vez mais, me cabe em sorte escrever para esta coluna de cinema.
Temo que, ainda que quisesse aceitar o desafio e estivesse disposto a organizar-me para tal, haveria sempre muito pouco cinema neste texto.
Talvez conseguisse fazer alusões a um ou outro filme-catástrofe para encontrar uma analogia intelectual capaz de descrever a destruição que ainda permanece a toda a volta. A metáfora da mão divina não estaria fora de questão para sugerir o grau de obliteração da paisagem que, todas as manhãs, encontro. Árvores robustas quebradas como palitos ou arrancadas pela raiz como se, por acaso, não tivessem resistido durante décadas a outros fenómenos naturais de suspeitosa índole destruidora. Incêndio após incêndio, tempestade atrás de tempestade, uma floresta que teimava em resistir e permitir-nos sonhar que um dia os nossos filhos iriam, pelo menos, ter um vislumbre do que foi, em tempos, para geração dos seus pais e avós, o belíssimo pinhal de Leiria. Se esse sonho resistia, a par e à sombra dessas árvores… agora já não. Encontro aí muito pouco cinema.
Pensei até que, nalgum momento, conseguisse reunir forças para me recordar de uma mão cheia de filmes cujas histórias inspiradoras, acerca de pessoas intrépidas, corajosas ou abnegadas servissem de termo de comparação com as vidas colocadas em suspenso pela falta de energia elétrica, comunicações e água. Dias a fio. Semanas a fio. Velhos, crianças, famílias separadas. Dias a fio. Semanas a fio. Como se vivêssemos num país remoto e extenso, em que a distância temporal para fazer chegar auxílio às populações se medisse efetivamente em dias. Não será, porventura, o momento certo para aprofundar análises sobre o litoral sobrepovoado, com as suas numerosas vias de comunicação versus o interior desertificado e isolado. Dizem-me que não é o momento. Também aí, encontro muito pouco cinema.
Ponderei em determinada altura, e ainda sinto o estômago às voltas apenas por revisitar essa ideia, em apontar a uns quantos thrillers políticos, para conseguir enquadrar esta coluna no contexto do cinema e atirar (para matar) sobre a inqualificável incompetência dos poderes eleitos. Como se afasta uma qualquer argumentação populista face ao repugnante distanciamento, alheamento, isolamento, desconhecimento, do poder central relativamente às populações afetadas? Nem mesmo os heróis improváveis, também eles cientes das suas agendas políticas, conseguem retirar-me da boca o gosto a fel, ao imaginar como sem as estruturas coletivas auto-organizadas, o voluntariado e o voluntarismo, sem a solidariedade não institucional, a catástrofe teria sido ainda pior. Mesmo aqui, encontro muito pouco cinema.
O mediatismo arrefeceu, as portagens foram repostas e, praticamente um mês depois continua a haver gente sem tecto, sem luz e sem comunicações. Os cabos elétricos cruzam a estrada de muitas das ruas desta cidade e quem, longe daqui, conseguiu retomar a normalidade, prepara-se para instalar o esquecimento.