Opinião

Cinema | Amor ardente de forma distinta

19 jun 2020 20:00

Neste filme temos dois rostos que fazem parte do mesmo corpo: quando um se afasta, logo surge outro. Duas mulheres que se complementam uma à outra, nesta ilha de Lesbos, sem a presença masculina normativa.

Retrato de Uma Rapariga em Chamas (2019), realizado por Céline Sciamma, conta-nos a história de um amor proibido e, por isso, intenso, ao mesmo tempo que trágico, entre Héloïse (Adèle Haenel) e Marianne (Noémie Merlant) em que a arte, neste caso a pintura, empresta a este amor parte da sua essência: o efémero que é fixado para sempre na tela.

A narrativa é passada no século XVIII, em França, numa ilha remota. Marianne, jovem artista, foi contratada para pintar o retrato de Héloïse para o seu futuro casamento indesejado. Inicialmente a pintura é praticada em segredo, sem que a jovem o saiba.

Os olhares furtivos de Marianne ainda que tenham como intenção captar a fisionomia de Héloïse não conseguem esconder a curiosidade de conhecê-la.

Contudo, a clandestinidade a que se presta não a levará muito longe. Embora satisfaça o seu propósito, o retrato surge sem brilho e frouxo.

Paralelo ao trabalho que lhe foi pedido, a intimidade com a futura noiva vai ganhando terreno, consequência do tempo que passam juntas.

É preciso recomeçar. A tela transforma-se na superfície do desejo que só é totalmente fruído quando retratista e retratada se libertam das convenções, regras e tradições.

A partir desse momento, a pose adquire vigor, a tez torna-se viva, as mãos assentam suavemente e, por fim, os lábios já não conseguem esconder mais o seu enigma.

Finalmente se abrem para a mulher amada. O sorriso de Héloïse, como âmbar (fruto dos deuses), pode então ser colhido por Marianne.

Neste filme temos dois rostos que fazem parte do mesmo corpo: quando um se afasta, logo surge outro. Duas mulheres que se complementam uma à outra, nesta ilha de Lesbos, sem a presença masculina normativa.

Não é por acaso que Marianne veste vermelho e Héloïse, por vezes, verde. O amor que aí floresce acaba por tomar o peso do mito fruto da leitura de Ovídio, realizada após um jantar: o desventurado Orfeu que perde a sua mulher, Eurídice, depois de quebrar a promessa de olhar para trás.

No momento mais lírico e metafórico, onde Héloïse se metamorfizou em Eurídice, vemos a sua figura espectral e luminosa perseguir Marianne, como se saísse de um sonho de Jean Cocteau, recordando aquela cena deslumbrante, em que Josette Day, que interpreta Bela, percorre levitando o castelo do Monstro (La Belle et La Bête , 1946).

Visualmente esplêndido com cores pastel e um erotismo que não é gratuito, abarcando emoção, ternura e dor, o filme demonstra o processo da auto-descoberta, do que é estar apaixonado, sem nunca perder a tensão e o magnetismo, que se vai intensificando desde o início para, no final, ter a sua apoteose.

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