Opinião

Autarkeia

5 set 2017 00:00
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Fernando Ribeiro, músico

Significa auto-suficiência em Grego.

Como todas as palavras antigas, é o suporte de muito do pensamento e da organização social contemporânea. Nietzsche baseou muitas das suas reavaliações dos dogmas, através da exploração filológica da palavra original e do conceito que a formava e que ela continha.

O pensamento de Nietzche, se quisermos simplificar muito, tinha um método que passava muito por tornar a palavra pura outra vez e assim encaminhar o Homem para a fruição e a prática correcta dos conceitos.

É inútil começar a ironizar, logo no início do texto, porque todos temos consciência da deturpação que as palavras e as coisas no seu sentido original têm sofrido. A instrumentalização de conceitos em proveito próprio é um dos maiores abusos de grandes ou pequenos líderes.

E não saber o que as palavras realmente querem dizer ou pelo menos o que significavam, uma lacuna incrível na nossa preparação para enfrentar caciques, oportunistas e mentirosos.

Duvido que muitos dos candidatos às nossas autarquias saibam Grego. Aposto a dobrar que pouco lhes interessa. Concordo, no entanto, que não é preciso saber Grego para governar uma Junta ou uma Câmara, ou colocar perguntas numa Assembleia, mas se alguém que esteja a concorrer estiver a ler, peço-lhe que leia o significado acima e que pense nele, num intervalo entre uma sessão de esclarecimento e uma arruada.

Votar nas autárquicas é como ir a um restaurante onde sabemos que vamos ser mal servidos. Ou a carne sabe a ranço, ou o peixe não é fresco, ou então é o serviço que azeda e as sobremesas que não adoçam. 

Podemos dizer que muito têm evoluído as nossas Freguesias, Câmaras, e por aí acima no puzzle vertical até ao topo. É verdade isso. Tão verdade como já não andarmos de carroça e termos à nossa disposição todo o tipo de carros, desde o que se arrumam sozinhos até aos que falam connosco.

Chama-se a isso a inevitabilidade do progresso e se nem todos beneficiamos ao máximo, também nem todos contribuímos tanto quanto imaginamos. Essa grandeza da nossa importância, é muito mal medida pelos autarcas que a exageram para ficar no poder e levar os seus munícipes a estarem sempre ao seu lado, mesmo quando vão para a cadeia por os roubar. É uma relação quase entre seita e Mestre, a quem tudo se perdoa olhando à “obra feita”.

Essa vaidade, essa sede de eternizar o seu poder, esse andar nas ruas com trejeitos de “Salvador da terra”, essa arrogância toda é o que me faz pensar que as eleições autárquicas é como ir ao baile da aldeia tirar uma rifa, daquelas que sai sempre: ora a mesma coisa; ora algum trambolho, ao qual não sabemos o que fazer ou onde pôr em casa.

Passei o fim-de-semana a ler sobre falcatruas autárquicas (Visão), sobre dinossauros que ainda mexem, sobre esquemas tugas. Essa leitura deixou-me apreensivo porque entre o registo cómico dos candidatos que “não cruzam os braços” apesar de na fotografia estarem de braços cruzados e os verdadeiros crimes de que muitos autarcas têm sido protagonistas (muitos impunemente) vai uma grande distância que apenas uma coisa cobre: o sentimento de oportunidade perdida para o sítio onde vivemos e a triste constatação de que, muitas das nossas autarquias, se jogam entre tolinhos e bandidos. 

Volto a este tema, pelo aproximar da data das eleições e não me conseguir sossegar ao pensar que quem decide tapar o buraco onde os nossos filhos podem cair ou não; que quem dá ordem para financiar as actividades na piscina de um grupo de deficientes; adjudica a limpeza das nossas ruas ou da sua própria imagem como candidato a empresas sem escrúpulos, insolventes e criminosas.

Não me sossegam os lemas, as tricas, as intrigas, o Photoshop nas rugas, a escolha certa de gravata, a ocupação de sedes em sítios onde podiam morar pessoas, e, maldição, que não se me acaba a lista.

Viver localmente é a vivência mais importante que conheço. Tudo o resto é e será passageiro, duma ou doutra forma. Fecho os olhos e imagino uma casa branca, a nossa terra. Mandámos chamar um homem ou uma mulher para a caiar de branco.

Damos-lhe a nossa confiança, os nossos dados, a nossa chave. Pagamos-lhe ordenado e pensamos que eles até gostam de fazer aquele trabalho. Caiar. De branco. Sob o sol forte ou sob a agradável brisa, ou até já sob um vento incómodo. Que se levantam de manhã a pensar em nós e na nossa qualidade de vida.

Mas, quando olhamos para dentro do balde a tinta é negra, cheia de vícios, de vaidade, da sede pelo poder. De vontade de fazer trampolim nas nossas costas e nas costas dos nossos filhos.

E quando damos por nós a nossa casa está preta, o chão escorregadio, as avenidas fechadas por obras à medida; e não, o Senhor ou a Senhora, no póster à frente da nossa casa, não vai fazer nada senão chutar para o canto, para Lisboa.

Afinal, hoje, autarquia é bem diferente de autarkeia e não é só a grafia. É em tudo: sai a auto suficiência, entra a auto-complacência. Sai o cidadão, entra o cacique. Nada se cria, tudo se perde, nada se transforma, a corrupção começa aqui, nas terrinhas de Portugal e como os fogos que nunca se apagam, está, para já, e porque não há coragem legal ou política para proibir mandatos e abusos, fora de controlo, com muitas frentes activas. 

*músico e vocalista dos Moonspell