Opinião

Augusto Mota (2005) SUJEITO INDETER MINADO, OU o breviário conciso…

5 jan 2020 20:00

SUJEITO INDETER MINADO, breviário de textos brevíssimos de Augusto Mota (n. 1936), é uma edição de autor de 2005; porém só o conheci em janeiro de 2019, com a subtil dedicatória do autor, um “sujeito bem determinado”…

Embasbacada, fiquei eu perante a beleza do objeto, surpreendente grafismo e escolha de vinhetas do ’jardineiro-filósofo’ que desponta para o leitor com 65 inquietantes ficções breves ou mini-ficções, concisamente orientando o leitor para o cultivo e a poda dos filosóficos silogismos e pensamentos aforísticos cuja contemplação conduz à reflexão. O inesperado do livro precisou de levedar em mim quase 365 dias, antes de me julgar capaz de dizer algo revelador da minha viagem íntima de leitora, apreciadora de palavras no meu secreto jardim marítimo.

Justifico-me: o breve prefácio ou introdução – que serve de lição iniciática… – aparece numerado com 00, intitulado vestíbulo; é de Alberto Pimenta e datado de 25.05.2005. Não vou repetir o dito, mas aconselhar a vantagem de conhecer algumas das ferramentas apontadas como fundamentais para percorrer este jardim minado de ironias, reveladoras das contradições do ser e do (no) mundo. Laboriosamente, fiz contas para ver se encontrava o simbolismo dos números e pretendi que Augusto Mota teria 65 anos quando editou o livro – o que não coincidia com a realidade, mas me agradava para salvaguardar a leitura finalmente despontada ainda nos meus 56 anos. O zeugma pode ser um útil instrumento de leitura destes textinhos. E até a caligrafia: pela primeira vez me apeteceu enviar uma recensão crítica manuscrita… E encontrar o paraíso grafado osíarap, como nos jogos de criança à procura da secreta flor dos mistérios. A única indicação temporal a acompanhar os textos é: “de Janeiro a Março de 2003”, mas ainda aí a soma é excessiva e apenas a primavera em gestação se prevê.

Leituras impressionistas da professora agradada: o desejo fez-me tomar uma decisão. O suicídio é uma atitude sem paralelo sob a sentença do impasse. Até a paixão pode ser um naufrágio e nem toda a arma serve na perfeição. Perante o altar do retrato, a jura é uma metamorfose; pode tornar-se o antivírus da pescaria. Qualquer travessia exige navegação com rigor. Com o fiel cão nikki. Culinária com a eficiência e para a posteridade: só com recurso ao ilusionismo. Chega-se ao engano com hamelin, analogia do reflexo de peregrinação. Em nós, sempre a avidez, excitação, perspectiva surtida… Não há truque nem barbárie sem frustração da higiene mental. A música de shumann fomenta a autocrítica e o presságio do contrato: solta a fobia do mundo; só, o viageiro engrandece a sua visão. Silogismo? Opção? O juízo traz prazer e a contradição toca o alarme. Desculpa para a limitação ou o deleite na campanha e no limite da decepção? Revés, surpresa, asìarap, alcunha forjada que esconde a surpresa da opinião. Assim, o epílogo de tudo…

Não sei onde pode o leitor encontrar o livro, mas não há nada que as varandas do palácio não consigam determinar. A fama é bela e arguta e voa habitualmente nas teias virtuais da solidão partilhada. O sujeito, esse continua a ter corpo efémero e frágil: os perecíveis livros teimam em viver com as folhas das árvores guardadas. 65 formas substantivas, libertas das gorduras dos adjetivos. Breviário conciso.

 

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