Opinião

As sete pragas do Egipto

17 nov 2017 00:00
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Fernando Ribeiro, músico

Não há dúvida que temos razões para estar sempre optimistas. Podemos ver esse optimismo de vários ângulos.

Nos afectos do nosso Presidente da República, no sorriso que amarela do nosso primeiro-ministro, na vontade, essa mais genuína, de seguirmos com as nossas vidas e de reconstruir, com ou sem apoios, baseados apenas na necessidade de tornar a viver, mesmo que seja entre a tristeza das matas calcinadas. O Optimismo é imortal. 

Os orçamentos irão passar, os relatórios serão entregues, a mágoa vai-se esvaziando, dando lugar a uma vontade “que está em nós” e que não pode, nem deve ser legislada. Apenas acontece. Quando falamos de instinto de sobrevivência, ao chamar-lhe instinto estamos, de imediato, a diminuir essa qualidade que, cada vez mais, se vai manifestando perante o que nos acontece. 

Muito mais do que um instinto, o sobreviver é inteligente. Uma cultura que não se aprende só nas escolas ou em casa, mas que se ganha, principalmente, observando o mundo, lendo muito e conseguindo que, esse optimismo profundo da sobrevivência, se torne útil, prático e consciente. 

O único pecado do optimismo Português é quando achamos que ou só acontece aos outros; ou que não vai acontecer tão cedo. Não nos preparamos, nem fizemos ainda o ajuste da nossa cultura para uma vivência que implique saber não só lidar, como preparar um futuro que, todos os dias, apresenta provas e desafios que tem de despertar, outra vez, o engenho humano e político ao invés do último recurso da solidariedade, a antecipada preparação, a prevenção - palavra que é constante em todos os relatórios e depoimentos de quem estudou ou viveu o fogo. 

Depois do fogo, veio a seca e pedir chuva aos santos tem-se provado ineficaz. É verdade que falta ao nosso País a cultura das grandes catástrofes, e ainda bem, mas quando o céu, a terra ou o fogo se tem manifestado, arrependemo-nos do tempo e da energia que gastámos noutras coisas, sendo apanhados de surpresa, terrivelmente apanhados de surpresa.

Num País que enfrenta um fenómeno natural a longo prazo como a seca, estarmos, agora, a consumir as nossas reservas hídricas a um ritmo assustador prova exactamente o ponto de que na nossa cultura, o tudo está bem, ainda é, incrivelmente, uma certeza dos Portugueses que só conseguem levantar-se da cama se as condições estiverem reunidas. 

O Estado cristaliza isso pela sua brutal impassividade e alienação, entregando o controlo do País ao iminente caos que uma seca pode originar, ao acaso da solidariedade, ao sentimento de que tudo acontece de repente, apesar dos avisos, populares ou académicos, que não chegam a subir pela escadaria do Parlamento.

Ignorar e promover o instinto de sobrevivência, com o cuidado de não cair em exageros “americanos”, falar nas aulas sobre como as coisas são e podem ser, para incutir responsabilidade natural e não só social; e, acima de tudo, perceber os sinais, fazer a leitura certa e o investimento certo é o que Portugal precisa. 

Agora que foi acossado pela crise, pelo fogo, pela falta de água, há que acordar para os sinais e a primeira medida é fazermos nós próprios uma análise séria do que nos rodeia e influenciar o vizinho que influenciará mais um e por aí fora, começando pelas bases, já que, no topo de Portugal, se vive o optimismo burguês da sopa de rúcula e da água mineral engarrafada dos refeitórios de São Bento.

 

*músico e vocalista da banda Moonspell