Opinião

As nossas viagens de circum-navegação

10 jan 2020 09:11

Comemorações históricas têm que se ancorar na investigação e na educação.

Sempre desconfiei das Comissões Comemorativas. Quer se queira, quer se não queira, por natureza são sempre muito políticas. Mas dou “o braço a torcer” quando vejo pensamento estratégico bem estruturado, projectos bem delineados e acções bem promovidas.

O que interessa fundamentalmente é que qualquer comemoração, incidindo sobre coisa do passado, acabe por deixar algo para o futuro. Com seriedade.

Infelizmente não tenho muitas razões para ser optimista. As Comemorações dos 500 anos dos Descobrimentos, por exemplo, foram “mais ou menos”...

Era bom que tivessem tido repercussão internacional , mas não tivemos engenho nem arte para as tornar verdadeiramente visíveis aos olhos do mundo como deveriam ter sido, até por uma questão de justiça para com a nossa História.

Fico sempre convencido que no final o que fica das comemorações são uns encontros de amigos, umas passeatas comemorativas, uns jantares oficiais comemorativos numa qualquer embaixada em qualquer canto do mundo e uns luxos de novo riquismo para deleite de alguns (basta ver a revista Oceanos).

Comemorações históricas têm que se ancorar na investigação e na educação. E isso pressupõe que se comece a trabalhar pelo menos dez anos antes das comemorações.

Promovendo-as nos centros de investigação internacionais, oferecendo bolsas de investigação a investigadores cá dentro e lá fora, realizando congressos internacionais, publicando em inglês, trabalhando com as escolas de diferentes níveis.

E depois também, as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses deveriam ter tido a coragem e energia de mediatização de eventos culturais diversos à escala global.

Publicitados nos grandes media internacionais.

Um exemplo que sempre dou é a de um produtor brasileiro que se arrastou pelo Brasil e por Portugal para conseguir alguns milhões para uma grande produção fílmica a realizar por Michael Cimino, sobre a descoberta do Brasil. Que nunca conseguiu concretizar.

Entretanto os espanhóis apoiaram a cem por cento o projecto de Ridley Scott e é esse filme de qualidade duvidosa, o de Cristóvão Colombo, com Gérard Depardieu, Sigourney Weaver, Armand Assant e música dos Vangelis, que todos os professores portugueses dão a ver aos seus alunos quando querem ilustrar os descobrimentos…

Esta semana, ao ver a pompa e circunstância da saída do nosso navio-escola Sagres numa viagem pelo mundo, comemorando a viagem de circum-navegação preparada e iniciada pelo “nosso” Fernão de Magalhães, pergunto-me novamente para que é que isso serve, para além do treino dos marujos.

Que repercussões terá, para além da satisfação de quem nela participa?

Que projecção terá nos media internacionais, nas comunidades onde fizer escala?

E depois, finalmente, quanto custa? Que recursos vai consumir sem grandes proveitos comemorativos?

Temo que as comemorações portuguesas da primeira viagem de circum-navegação não passem novamente de “fogos fátuos”.

E à boa maneira portuguesa: para deleite e satisfação de alguns e o alheamento de muitos outros… e do resto do mundo.

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