Editorial

As bandeiras que (não) escolhemos

17 jun 2021 12:30

Parece que gostamos de viver anestesiados pelo queixume. E são ainda poucos os que teimam em pensar global e agir local

Chamem-lhe condão ou triste sina, é um facto. Portugal parece não saber viver de outra forma.

Descobre tarde os seus lados positivos, deleita-se com as lamentações e sustenta muitos dos seus insucessos na coisa alheia.

Tão depressa delira com os elogios de circunstância, como deprime com a crítica sublime. Continua a gostar da coisa tratada em cima do joelho.

Planeamento, ‘está quieto ó mau’, como se diz em bom português. Já existe algum (ou adeus aos fundos comunitários), mas nem sempre assente numa perspectiva alargada.

Não se pediam vistas largas. Pedia-se, isso sim, uma visão alargada.

Lamentavelmente, continuamos atolados em projectos que visam mais o remendo de alguns problemas do que a sua resolução.

Que procuram a satisfação do imediato, sem cuidar do impacto no longo prazo, sem pensar no efeito para as próximas gerações.

Continuamos a adorar debater obstáculos e não tanto a discutir soluções.

Continuamos a salivar por uma boa coscuvilhice, a extasiar com uma valente sessão de convívio, mas a cuidar pouco de alimentar a capacidade crítica, interventiva, construtiva e despretensiosa, no que ao individual diz respeito.

Parece que gostamos de viver anestesiados pelo queixume. E são ainda poucos os que teimam em pensar global e agir local.

Esta semana, o JORNAL DE LEIRIA mostra o retrato deste País a duas velocidades.

Oferece-nos o testemunho de um casal que trocou a capital pelo interior, que reforçou a sua consciência territorial, comunitária e ambiental, e demonstrou capacidade de resiliência num território cronicamente abandonado.

Uma família que gosta de ver nascer e crescer as couves, mas também se preocupa com as espécies que proliferam à sua volta.

Não por egoísmo, mas por ter pensamento sustentável, um conceito que tarda em colher verdadeiro amparo institucional nas chamadas zonas de baixa densidade.

Alerta-nos também, pela voz de um investigador, para a forma como ainda desprezamos a imensidão de recursos do oceano que percorre o País de alto a baixo.

Pelas palavras de Daniela Alves e de Tiago Bernardino, voltamos a perceber o muito que há ainda a fazer para derrubar as assimetrias provocadas pela falta de planeamento florestal na área mais a norte do distrito de Leiria, fustigada há quatro anos por um dos mais trágicos incêndios de sempre em Portugal.

Através do discurso informado de Sérgio Leandro, somos levados a reconhecer o quanto temos andado distraídos em relação a boa parte da biodiversidade do nosso litoral.

E quando as florestas e os oceanos deviam ser duas bandeiras do nosso País, continuamos a assistir a um movimento colectivo de sentido patriótico, com a colocação da bandeiras em quintais, varandas e janelas, apenas para apoiar o futebol.

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