Opinião

Água perdida, dinheiro deitado fora

30 mar 2017 00:00
joao-nazario-director-do-jornal-de-leiria
João Nazário, director do Jornal de Leiria

Por esse Mundo fora, mais de mil milhões de pessoas não têm acesso a água potável

Se nos países onde a água é um recurso escasso tivessem conhecimento de que em Portugal, até chegar às torneiras, cerca de 30% da água tratada que é inserida na rede é desperdiçada, certamente que nos apelidariam, no mínimo, de desleixados.

Como é óbvio, o ser humano tende a valorizar o que não tem e se, por cá, muitos sonham em encontrar petróleo no jardim, noutros pontos do globo, onde a água é rara e vale mesmo mais do que o ouro negro, chegam-se a fazer guerras por ela, como aconteceu, por exemplo, na disputa pelas fontes do rio Jordão, situadas nos Montes Golã, que precedeu a Guerra dos Seis Dias.

Por esse Mundo fora, mais de mil milhões de pessoas não têm acesso a água potável, estimando-se que cerca de oito milhões de pessoas, 50% das quais crianças, morram todos os anos devido a doenças provocadas pela ingestão de água sem qualidade, números que levaram já há muito a UNESCO a afirmar que “a água substituirá o petróleo como a principal fonte de conflitos no Mundo”.

Em Portugal, felizmente, a água ainda não escasseia, mas, além dos respeito devido a um bem essencial à vida, há que considerar os custos elevadíssimos em tratá-la e levá-la a casa das pessoas.

No fundo, cada m/3 de água que se perde corresponde a dinheiro deitado fora, aumentando o custo do consumidor final, seja directamente no seu preço, seja indirectamente nos impostos para fazer face a eventuais défices financeiros das empresas públicas ou autarquias que asseguram esses serviços.

Segundo se percebe, tamanhas perdas têm origem na degradação das condutas que transportam a água, boa parte delas com idade avançada e a necessitar de modernização.

No entanto, sabendo-se que este tipo de obras, que ficando debaixo de terra têm pouco impacto visual, não costumam entrar nos investimentos prioritários dos nossos políticos, será de esperar que o problema se vá arrastando e agravando.

No dia em que os alarmes soarem por a água deixar de chegar às habitações, pensar-se-á no assunto.

A comemorar cinco anos de vida, a InPulsar tem desenvolvido um trabalho que é um verdadeiro exemplo de civismo, de responsabilidade social e de solidariedade.

Actuando junto de comunidades desfavorecidas, que a lógica de competição e de optimização da nossa sociedade tende a excluir, os responsáveis pela InPulsar têm mostrado que ainda há pessoas dispostas a dar o que têm pelos outros, seja tempo, dinheiro ou amor, fazendo o contraponto ao individualismo que vai imperando, cada vez com mais força, por esse mundo fora.

São pessoas como as que dão vida à InPulsar que nos fazem acreditar que poderemos ter um mundo diferente daquele que diariamente nos entra pela casa adentro, através da televisão, e que parece completamente tomado pela crueldade, pela ganância e pelo egoísmo.

Muitos parabéns à InPulsar e a todos os que contribuem para que ela exista.

*director do JORNAL DE LEIRIA