Opinião

A Terceira Guerra Mundial

4 abr 2018 00:00
fernando-ribeiro-musico
Fernando Ribeiro, músico

A coisa que mais odeio no mundo, neste momento, é viajar.

Boa sorte, dirá quem me conhece, porque sabe perfeitamente, tal como eu, que a minha vida e a minha profissão assim o exigem, incondicionalmente. 

Pelas minha contas, viajarei por mais dez anos. Terei de, celeremente, me adaptar ou desistir ou, simplesmente, me retirar por estar a mais.

Não me importo de viajar de comboio, carro ou barco. O meu alvo directo é a aviação e o que temos de fazer para sobreviver nesse mundo à parte de aeroportos, aviões e passageiros. 

A adaptação não será fácil e existem dois grandes culpados aqui. Vamos chamar ao primeiro Empresarial. Este contém todas as companhias áreas e administrações de aeroportos. Ao segundo chamemos Passageiros ou mercadoria, porque a diferença é cada vez menor. 

O mundo Empresarial dos aviões, está empenhado numa campanha, sem escrúpulos, contra os seus clientes, isto é, contra todos nós que temos o azar e o horror de ter de voar para qualquer sítio, business, economic, low cost, férias. Hoje em dia, a única diferença é o tamanho da bolsa mas estamos todos, ricos e pobres, muito mal servidos.

Desde a sandes de frango num voo de quatro horas, aos atrasos epidémicos, mesmo em companhias, outrora, pontuais, ao legroom que impressiona qualquer yogin amador, às pornográficas revistas na Segurança; os tortuosos esquemas montados têm-se traduzido num desgaste enorme para o viajante que, muitas vezes, ocorre em momentos de fúria injustificada que se pode tornar perigosa. Falo por experiência própria.

Os passageiros são pequenas bombas-relógio que não apitam no Raio X e qualquer aeroporto em qualquer cidade do Mundo está cheia deles. 

Também nós, que andamos de um lado para o outro, a passear ou a trabalhar temos, e como, culpas neste cartório.

Num aeroporto, esquecemos todas as regras de civismo. Qual carrinhos de bebé, qual idosos, qual passageiros prioritários, gold card, business pfffff! Não, nós embrutecemos numa bicha para o embarque, que desafia toda a matemática das filas de espera, e estamos prontos a liquidar qualquer ser que se ponha à nossa frente.

Lá, dentro do avião, chegamos tarde, queixamo-nos de não ter onde pôr a mala e os saquinhos com os pastéis de nata. Damos porrada nas costas da cadeira quando o passageiro da frente se reclina e levantamo-nos mal o avião pousa para sermos “os primeiros”.

E estou a ser gentil. 

Tenho a certeza absoluta que é num aeroporto que vai começar a Terceira Guerra Mundial. Todos contra todos. Turistas chineses a esmagarem, numa corrida de centenas, velhotas alemãs. Italianos engravatados à cotovelada a famílias turcas. Portugueses despejando café quente pelo colarinho abaixo dos brasileiros.

Já vi tudo quanto queria ver. Já vi mais do queria ter visto. Já estive em sítios paradisíacos, que esqueci de imediato, assim que cheguei ao avião. O meu maior desejo, num mundo cujo sonho é viajar e conhecer e fotografar tudo o que possamos, é (tomara eu) um dia destes, nunca mais ter de fazer uma mala. 

Nota: Este artigo foi escrito antes da greve dos tripulantes da RyanAir. Também foi escrito antes da reacção ingénua da opinião pública, que só por profunda desinformação não sabe que as Companhias Aéreas fazem as suas próprias regras e que nenhum governo ou sindicato ou associação de defesa do consumidor lhes consegue chegar.

*vocalista e líder dos Moonspell