Opinião

A música como segunda língua e primeira ferramenta da humanidade

26 mar 2026 11:18

A música revela uma força estruturante quando lhe é dado espaço. Uma sequência rítmica feita com objetos banais pode despertar atenção, memória, coordenação e pertença

Num sistema educativo que hierarquiza saberes, a música deve ser abordada como ferramenta de aprendizagem. Retomei recentemente um projeto que, por questões de agenda, não tinha conseguido aprofundar. Entretanto, encontrei o espaço e as pessoas certas para voltar a fazer as Oficinas de Música Criativa com crianças. Nestas oficinas raramente começo com instrumentos; primo por usar o que temos: mesas, lápis, copos, objetos já sem utilidade (como teclados de computador) ou as próprias mãos. O som nasce desta interação natural entre elementos do quotidiano, tal como a linguagem verbal nasce espontaneamente antes da escrita.

Apesar de ser vista como disciplina secundária, a música revela uma força estruturante quando lhe é dado espaço. Uma sequência rítmica feita com objetos banais pode despertar atenção, memória, coordenação e pertença. Ninguém fica de fora, todos acrescentam algo.

Os grupos funcionam como pequenas orquestras improvisadas. Não no sentido clássico, mas no essencial: cada criança tem um papel indispensável; semelhante a uma sociedade saudável onde não há funções menores. O silêncio de um pode desorganizar o todo e a escuta de todos cria o equilíbrio. É um exercício de cidadania disfarçado de brincadeira.

A música torna-se ponte para aprendizagens; dando ritmo à tabuada (outrora obstáculo abstrato) e transformando a ordem dos planetas numa memorável melodia. Uma nova língua encontra na repetição musical uma passagem natural, organizando o conhecimento através do som. Mais do que ensinar música, ensina-se a aprender: ao expor o erro como parte do processo, ao mostrar que ouvir é tão importante como fazer e ao provar que o coletivo amplifica o individual.

Talvez devêssemos repensar o lugar da música na educação. Não como um complemento, mas como uma linguagem essencial, tão importante como ler ou escrever. No fundo, aprender a fazer música é aprender a estar com os outros e isso é o que nos forma.