Opinião

A funâmbula e o vendedor de sonhos

17 fev 2017 00:00
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João Lázaro, psicólogo clínico

Desde que se lembrava de si, preferia o equilibrar-se no lancil dos passeios ao piso firme da calçada que os outros pisavam com segurança.

Apreciava aquela sensação de perigo de caminhar tensa nos poucos centímetros da largura de pedra, a eminência do desequilíbrio, a concentração que impunha a si mesma para não descair para o lado onde outros, paralelamente, caminhavam de cá para lá, sem pensar no ato de andar, mas mais ainda no precipício que representava pôr um pé na estrada e abeirar-se do tráfego acelerado de que sentia um vento resvés.

Nas tardes de sol, e mesmo quando o não havia, desenhava linhas imaginárias entre dois pontos num qualquer espaço. Ponto de partida. Ponto de chegada. Viagem extrema dentro de si. Equilibrar-se num arame com abismos imaginários por de baixo.

Preferir o desafio permanente do depender unicamente de si ao chão-terra onde os outros seguiam confiantes. Viver funâmbula o tempo todo era uma decisão para a vida. Equilíbrio sempre. Nas palavras, gestos, atitudes.

Por via disso sempre era vista como muito ajuizada, um exemplo de ponderação, consensual, eclética chamar-lhe-ia um dia um professor de filosofia dando-a como exemplo de sabedoria.

Os outros a olhá-la distantes. Como se poderia viver sem experimentar todas as coisas, sentir todas as dúvidas, provar todos instantes que a vida proporciona? Como se podia viver tão segura de si?

Evitavam-na e esse vazio entre eles era o seu abismo cada vez maior, mais desafiante, altura que a orgulhava. E fez-se mulher. Só, contudo, no seu arame imaginário por sobre a vida e os outros e o tudo que faziam parte dela.

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