Opinião

66 mortos talvez não cheguem

21 jun 2019 00:00
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Jacinto Silva Duro

A demissão de Ricardo Vicente do Observatório do Pinhal do Rei é mais um dos sinais que deveria preocupar a comunidade de Alcobaça, Leiria e Marinha Grande com o que se passa nas matas nacionais litorais.

Após o incêndio de Outubro de 2017, o Observatório foi criado para acompanhar os trabalhos a realizar para a recuperação da Mata Nacional de Leiria, que reduziu a cinza mais de 86% da sua extensão.

Porém, o engenheiro agrónomo afirma que o organismo “não está a responder às suas principais responsabilidades”, chegando ao ponto de dizer que “ao nível da sua coordenação e, também, ao nível do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) não há vontade política para que esta instituição responda aos seus compromissos”.

Há ano e meio que o Observatório não reúne e o parecer por si elaborado não mereceu quaisquer respostas da parte do ICNF.

A juntar esta demissão ao panorama desolador que se vê na área ardida, e dada a ausência de qualquer esforço de concretização no terreno de um plano musculado para recuperar o pinhal que vai sendo engolido por espécies exóticas, daninhas e invasoras - como a mimosa e o eucalipto -, começamos a antever um cenário onde os nossos bisnetos jamais brincarão à sombra fresca e doce do Pinhal Real de Leiria, como nós fizemos.

Também no Pinhal Interior, que ardeu há dois anos, tirando a vida a 66 pessoas, a ausência de medidas e acções práticas de ordenamento do território é semelhante. Num cenário de faroeste onde, não obstante as palmadinhas piedosas nas costas e as palavras simpáticas dos governantes que, no dia 17, aniversário da tragédia, até assistiram a uma missa em Pedrógão Grande, o crime ambiental compensa… e muito.

Afinal, quantas mais pessoas terão de morrer para que se protejam populações que vivem no meio de barris de pólvora florestais, e se conserve um território cada vez mais seco e árido? A celulose pode dar dinheiro, mas tentar resolver mais tarde será infinitamente mais caro e talvez impossível.

Em Leiria, o festival A Porta entra no seu fim-de- semana mais intenso. São os últimos quatro dias do evento que serão marcados pelo tradicional piquenique à beira do Rio Lis, no centro da cidade. A rua direita volta a ser o palco central, devolvendo-lhe a vida que ali tarda a regressar em definitivo.

A Porta, apenas na sua quinta edição, é já, no panorama nacional, uma das mais importantes apostas da cultura urbana alternativa.

Por fim, não podemos deixar de apoiar o pedido de ajuda a Cristiano Ronaldo por parte de um grupo de reclusos de Leiria, que pretende recuperar o campo de futebol do EPL (Jovens).

O Ministério da Justiça não responde às suas solicitações, quem sabe ocupado a fazer novas e importantes cativações, e os jovens compuseram um rap destinado ao seu deus dos relvados. Pode ser que o génio Ronaldo lhes satisfaça o desejo. 

 

*jornalista