Sociedade

Vítimas do fogo ainda à espera, dois meses depois

17 ago 2017 00:00

As tristemente célebres "árvores-gasolina" estão carregadas de rebentos e prometem, o mais tardar, na próxima Primavera, cobrir a paisagem enegrecida com o seu verde azulado.

Fotografia: Ricardo Graça
Fotografia: Ricardo Graça
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Fotografia: Ricardo Graça
Fotografia: Ricardo Graça
Fotografia: Ricardo Graça
Fotografia: Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

Dois meses após o início do incêndio de Pedrógão Grande, os eucaliptos, que com as suas folhas cheias de óleo inflamável e cascas secas como papel, ajudaram a propagar e intensificaram a velocidade e os efeitos com que a tempestade de fogo se abateu, matando 64 pessoas - números oficiais - contrastam com os Homens, no seu labor para curar as feridas do fogo.

As casas das aldeias massacradas pelas chamas continuam calvas de telhados e cegas de janelas. É certo que as respostas têm chegado e já há casas reconstruídas ou reparadas noutros locais, mas a população gostava de ver maior celeridade na reconstrução dos lares. "Está tudo na mesma.

Ainda ninguém ajudou nada, ainda ninguém fez nada. Estamos à espera", diz Georgina Carvalho, 77 anos. Habita no fundo de Pobrais, localidade onde morreram 11 pessoas. A sua casa fica ao lado da pequena moradia onde um idoso perdeu a vida a dia 17 de Junho. "Coitadinho, morreu ali dentro, assado."

No pequeno pátio da casa de Georgina, tudo é limpeza e arrumação. Ninguém diria que jactos de plasma incandescente se abateram ali, ateando fogo a tudo o que não estava protegido. "Vê aquelas janelitas ali em cima", pergunta, apontando para o primeiro andar. "Foi dali que vi aquele barulho e o vento cheio de fogo a chegar. Eu e a cadela, fechadas lá dentro. O gato salvou-se sozinho."

As cadeiras onde se sentava no pátio e o telhado da casota da cadela ficaram quase completamente reduzidas a carvão. Os cortinados que tinha a secar também foram consumidos pelas chamas. Um espanta-espíritos, embalado pela leve brisa que se faz sentir no ar sufocante, lança um longo e alegre trinado, aliviando as memórias.

A sombra negra da recordação passa, desanuviando o olhar e Georgina prossegue a conversa. "Olhe, estou à espera. Estou à espera como os outros. Ainda ninguém da Câmara cá veio, mas ouvi dizer que há quem já foi a Pedrógão tentar saber alguma coisa... mas veio de lá na mesma", diz.

Após um momento de cogitação silenciosa, ajeita o chapéu negro na cabeça e adianta que ainda não é tarde, porque há casas de primeira habitação que são prioridade. Apontando para um anexo destruído pelo fogo, diz que gostava que a ajudassem a pôr as paredes no ar. "Mas ainda nada sei. Estou à espera."

“Ó Isilda, vamos morrer todos!"

Ao lado da casa de Georgina, ergue-se um alto e frondoso sobreiro, enegrecido pelas chamas. No alto da sua copa, já se podem ver verdes rebentos. A natureza não espera. "Está tudo parado e não há ajudas", diz Isilda Dias, 66 anos, prima de Georgina.

As mazelas daquele dia estão bem patentes no braço fracturado que carrega numa funda presa ao pescoço. Caiu com baldes de água na mão, quando tentava apagar as chamas num barracão carregado com lenha.

Reformada, tem ali uma casa e partilha o tempo entre Pobrais e Sintra. "Tinha muita floresta, mas fiquei sem nada. Felizmente, fiquei viva. Foi deus nosso senhor que nos guardou. Ninguém imagina o que a gente aqui passou", garante. 

Em minutos, conta, o dia transformou-se em noite, como se o Apocalipse estivesse para chegar e ouvia trovões muito perto. "Uma vizinha disse-me: 'ó Isilda, vamos morrer todos. Não ouves o barulho?' Eu pensava que aquele barulho era chuva que vinha, mas era o tornado de fogo."

Sem bombeiros por perto, o marido, Idalino, correu a salvar as arrecadações no quintal e Isilda foi para a varanda com uma mangueira, para apagar o que começasse a arder. Ficou sem água ao fim de três minutos. Foi o que a salvou.

Saiu dali para ver o que se passava e uma língua de fogo varreu o sítio onde estava. "Eram labaredas de não sei quantos metros a passar por cima da casa. Se a água não acaba, nem me apercebia do lume a chegar e morria queimada. Eram pedaços de chamas que vinham pelo ar e entravam pelas telhas."

Nenhuma das duas viu os vizinhos que tentaram fugir de carro pela EN236 e que foram encontrar aquilo que ninguém quer. O fantasma do fogo e os nervos em franja continuaram a moer a mente aos habitantes, nos dias que se seguiram. Isilda diz que ficou "escangalhada da cabeça", não conseguia dormir e, quando olhava para os sofás, via chamas a despontar deles. O marido teve de os colocar na rua para a acalmar.

"Via as chamas à minha frente e não dormia. Procurei apoio psicológico em Sintra. Nos dias a seguir, quem é que tinha cabeça para fazer alguma coisa?", pergunta Isilda. Ainda hoje, as conversas dos dias vão bater sempre no mesmo assunto e não saem dali, presas àquele passado, omnipresente.

“Quando chegarmos a compor a vida, batemos a caçoleta”

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