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Roteiro da Judiaria de Leiria: Transformar o quotidiano em descoberta

3 ago 2026 18:00

Visita orientada dá a conhecer alguns dos locais associados à presença da comunidade judaica. É também o convite a olhar para a cidade com outros olhos e à reflexão sobre a sua herança multicultural

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Casa dos Pintores é um dos locais que fazem parte do roteiro
Ricardo Graça
Pedro Miguel Carvalho

Percorrer a antiga Judiaria de Leiria é caminhar com outra propriedade por sítios hoje comuns. Onde agora passa o transeunte desatento, houve durante séculos uma comunidade que imprimiu livros, fez política externa e construiu uma identidade à margem, mas não à parte, da cidade medieval.

O Roteiro da Judiaria não é apenas um percurso turístico. É um exercício de memória que convida a ler a malha urbana como um manuscrito: camadas de história sobrepostas, onde o invisível se torna, subitamente, presente. A presença judaica em Leiria está documentada desde 1219, data de um dos primeiros judeus residentes na vila identificado pelo historiador Saul António Gomes. Mas é provável que a comunidade seja anterior.

“Os reis, desde D. Afonso Henriques a Sancho I, incentivavam a fixação de judeus”, explica o guia do roteiro, Mário Coelho, que, no domingo, concretizou mais uma visita orientada. “Chamavam-lhes «os meus judeus», porque os rendimentos revertiam directamente para a Coroa”. Era uma relação de protecção, mas também de instrumentalização económica.

A Judiaria consolidou-se fora das muralhas, num bairro que cresceu até ao seu apogeu no século XV. Era um espaço de autonomia – com sinagoga, cemitério, mikveh (banho ritual) e produção agrícola própria – mas também de segregação. “Havia portas que se fechavam à noite. Não era apenas discriminação; era também protecção”, sublinha o guia. As duas coisas coexistiam.

1492-1496: a tipografia que ajudou a descobrir o mundo

Um dos momentos mais notáveis desta história ocorre em 1492, quando o tipógrafo Samuel de Ortas, expulso de Espanha, se instala em Leiria. Quatro anos depois, imprime o Almanach Perpetuum, com tabelas astronómicas calculadas pelo judeu Abraão Zacuto.

“Este não foi apenas o primeiro livro científico impresso em Portugal”, realça o roteiro. “Foi uma ferramenta fundamental para a navegação: permitia aos pilotos [dos mares] calcular a latitude com precisão, usando o astrolábio melhorado. Sem este conhecimento, os Descobrimentos teriam sido muito mais difíceis.” A presença de uma oficina tipográfica na Judiaria não foi acidental.

“As comunidades judaicas tinham vantagens comerciais óbvias: eram poliglotas, mantinham redes de contacto internacionais e circulavam entre regiões”, explica o guia. Quando Portugal precisou de informações para chegar à Índia, recorreu a essas redes. Não foi só tecnologia; foi diplomacia informal.

Após a expulsão dos judeus (e dos muçulmanos) em 1496 e a criação da Inquisição, a sinagoga de Leiria foi demolida. No mesmo local, em 1545, ergueu-se a Igreja da Misericórdia. “A arqueologia ainda não confirmou a planta da sinagoga”, admite Mário Coelho. “Mas a documentação é clara: estava aqui.”

Hoje, a igreja barroca, dessacralizada para fins culturais, acolhe o Centro de Diálogo Intercultural, que promove o encontro entre cristianismo, judaísmo e islão.

A Inquisição

“Portugal ainda guarda registo de mais de 45 mil processos inquisitoriais”, lembra o guia. “Muitos baseados em denúncia anónima, com benefício para o denunciante.” A família do escritor Rodrigues Lobo, natural de Leiria, foi alvo: dois irmãos acusados, presos durante dez anos, depois absolvidos”. Rodrigues Lobo também foi acusado, mas morreu antes de o processo avançar. Esta memória de perseguição deixou marcas na arquitectura.

“As casas judaicas eram iguais às outras”, explica o guia. “Mas no lintel das portas, era tradição escrever citações bíblicas. Quando os residentes se convertiam, apagavam o texto e gravavam uma cruz. Hoje, vemos cruzes onde talvez nunca tenha havido judeus, e textos apagados que já não conseguimos ler”.

Século XXI: redescobrir a cidade através do diálogo

O Roteiro da Judiaria não é apenas um exercício de arqueologia urbana. É também uma reflexão sobre como a cidade contemporânea lida com a sua herança multicultural. A Casa dos Pintores, edifício medieval integrado no Centro de Diálogo Intercultural, está a preparar um novo espaço dedicado à matemática e à navegação, inspirado no Almanach Perpetuum. “Vamos ter um astrolábio para calcular a latitude”, adianta Mário Coelho. “Porque o Sol não está sempre no mesmo sítio: Inverno, Verão, equador, paralelo 39… São problemas matemáticos diferentes.”

A visita termina na antiga Rua da Água (hoje Comandante João Belo), onde corria um regato que abastecia a Judiaria e formava uma lagoa no Largo da Padeira de Aljubarrota. “Essa água foi canalizada, tapada, escondida”, explica o guia. “Mas ainda corre por baixo da cidade. É uma metáfora: o que tapamos não desaparece. Apenas deixa de ser visível.”

O Roteiro da Judiaria de Leiria convida a olhar para a cidade com outros olhos. Onde hoje há uma esplanada, houve uma porta de gueto. Onde há uma igreja, houve uma sinagoga. Onde há uma rua sem nome judaico, houve famílias que imprimiram livros, calcularam estrelas e negociaram com meio mundo. Não se trata de vitimização nem de exotismo. Trata-se de reconhecer que a história de Leiria é feita de camadas. Este próprio texto é uma ínfima parte do património que se conta neste roteiro.