Editorial
Plano de Mobilidade de Leiria: tem mesmo de incomodar
Algumas fragilidades apontadas ao PMUS expõem, ao mesmo tempo, os motivos por que o PMUS incomoda. A concretizar-se, a mudança vai implicar desconforto, inevitavelmente
Como raras vezes acontece na vida da cidade, há uma conversa a acontecer, colectiva, sobre o que interessa a todos. O gatilho é o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável de Leiria, que além dos partidos políticos, está a estimular outros grupos, com pareceres divulgados nos últimos dias – por exemplo, a Acilis, que representa comerciantes, industriais e agentes do turismo e dos serviços, e o Movimento Cidadãos por Leiria. Ou, antes, a Adlei.
Em poucas palavras, o PMUS recomenda mais mobilidade suave, como a bicicleta, mas o que incendeia os ânimos no debate é mesmo o automóvel, a restrição do uso do automóvel, ao ponto de a Câmara vir a público rejeitar medidas que o documento admite. “Não haverá cortes de trânsito nas ruas da cidade, com excepção da rua direita”, garante o Município. Até a Acilis vai mais longe, quando sugere a pedonalização das ruas João de Deus e Duarte Pacheco, junto à Fonte Luminosa.
Parece existir uma preocupação principal relativamente ao PMUS, por parte de quem o critica: impedir que o centro histórico seja transformado numa ilha onde será difícil morar e trabalhar. Outro ponto sensível é o acesso dos que visitam, compram e tratam de assuntos em Leiria, e das soluções que vão encontrar no futuro.
Algumas fragilidades apontadas ao PMUS expõem, ao mesmo tempo, os motivos por que o PMUS incomoda. A concretizar-se, a mudança vai implicar desconforto, inevitavelmente. Sem alterar profundamente o que existe não é possível transformar o território, encaixado entre colinas, com população dispersa pelas freguesias e sujeito a constrangimentos nos fluxos de e para municípios vizinhos como a Marinha Grande.
O concelho de Leiria ganhou mais de 13 mil habitantes em cinco anos, de 2021 para 2025, e a pressão deverá, até, aumentar nos próximos anos, com a Universidade e a prometida Linha de Alta Velocidade entre Lisboa e o Porto. Este Plano de Mobilidade, com mais ou menos correcções antes da versão final, é indispensável.