Abertura

Refugiados: Testemunhos de quem encontrou um porto seguro na nossa região

26 jul 2021 18:30

O distrito de Leiria recebeu 93 refugiados oriundos de diferentes países onde se vivem crises humanitárias. Na região encontraram pessoas “muito boas”, que os acolheram de braços abertos.

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Elisabete Cruz com Cláudio Garcia

Fugiram da guerra, da morte e da violência gratuita. Perderam familiares e meteram-se num barco sem condições à procura de paz e de um futuro para si e para os seus filhos.

Depois de passarem tormentas encontraram, finalmente, um porto seguro na região e assumem que foram adoptados por um novo país. Elogiam a forma como foram recebidos e afirmam que a integração foi plena.

Trabalham, são autónomos financeiramente, dentro do possível, e querem construir um futuro na nova pátria. O próximo passo é obter o cartão de cidadão português.

Tahani Sawsan vive na Batalha com o marido e quatro filhos, dois dos quais já nasceram em Portugal. Na porta ao lado está a família do irmão e ainda a avó. Agora são 15. Uma antiga escola primária em São Mamede acolhe-os.

“A família cresceu e a Câmara vai fazer obras de ampliação”, afirma Liliana Moniz, vereadora do Município da Batalha, que, desde o dia 4 de Abril de 2016, apoia este grupo de palestinianos

“Nunca vou esquecer esse dia. Quando cheguei a Portugal tudo estava calmo. As pessoas foram muito simpáticas. Quero agradecer ao presidente e à vereadora que nos ajudaram muito”, afirma Tahani Sawsan, no seu português com algumas falhas.

O marido está a trabalhar, as crianças mais velhas estudam. Com 12 e 14 anos, os jovens já assumiram o português entre eles, algo que nem sempre agrada à mãe.

“Quero que também falem árabe”, afirma Tahani Sawsan, que, para já, é doméstica, mas ambiciona trabalhar “assim que os mais pequenos forem para a escola”.

O passado desta família é de tristeza e violência.

Alguns familiares morreram, outros saíram da Palestina e da Líbia, onde o irmão de Tahani Sawsan chegou a ser raptado, durante dois dias, por ter um cabeleireiro de homens e “os talibãs quererem homens de barba comprida”, conta.

“Os homens não podiam fumar um cigarro na rua e as mulheres não podiam sequer vestir calças. As escolas estavam fechadas. Só existiam as do Daesh, onde nem leccionavam matemática. Sem emprego, havia muitos roubos e nem sequer havia polícia”, lembra a refugiada.

Muçulmanos de religião, esta família foi recebida duas vezes pelo papa Francisco. Primeiro quando se encontraram no campo de refugiados e depois em Fátima.

“Somos todos iguais. Todos somos pessoas e só existe um Deus”, constata, demonstrando um enorme respeito por qualquer religião. Aliás, completamente contra o fanatismo, Tahani Sawsan proibiu os filhos de irem à escola na Palestina, até porque esse era um lugar de recrutamento para o Daesh.

Assim que tiveram oportunidade pagaram e meteram-se num barco, como tantas vezes nos mostram as imagens que passam na televisão, e fugiram. “Tive muito medo. Tomei um comprimido para dormir na viagem. Sabíamos que se acontecesse alguma coisa ninguém se importaria connosco. Éramos 530 pessoas no barco”, recorda, lamentando ainda o tempo que passou no campo de refugiados, “sem condições”.

Em São Mamede encontrou “paz” e sonha com o futuro dos filhos, que gostaria que pudessem ser engenheiro e médico. Em Portugal, a família já celebrou o casamento do irmão.

Liliana Moniz adianta que a preocupação foi ajudar os oito refugiados iniciais a integrarem-se rapidamente na comunidade. Participaram em festas locais, a idosa passou a frequentar um centro de dia e as crianças foram inscritas na escola.

Seis anos depois, a família já tem vários amigos portugueses e garante que não quer sair de Portugal. “Obrigada”, não se cansa de dizer Tahani Sawsan, que assume que, apesar de tentar aprender a falar português cada vez melhor, não quer esquecer a língua materna, que fala em casa.

A avó afirma em árabe: “quero morrer aqui”, traduz Tahani Sawsan, recordando que a idosa fez a viagem de barco com mais de 80 anos. Voltar para o Médio Oriente está completamente fora de questão. Talvez se for de visita e só quando a guerra acabar.

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