Sociedade

Reféns das notas, alunos não treinam competências para a vida

12 mai 2018 00:00

A opinião é partilhada por professores e por encarregados de educação. O ensino secundário é tão orientado para as notas dos exames nacionais que não resta tempo aos alunos para adquirirem competências fundamentais para o dia-a-dia

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Daniela Franco Sousa

Professores pressionados, e frustrados, que têm de cumprir um programa orientado para as notas dos exames e para o acesso ao ensino superior. E alunos que, ao longo de três anos, não têm oportunidade de adquirir competências essenciais para viverem de forma autónoma nem nos tempos de faculdade nem nos anos que se seguem.

Esta é uma opinião partilhada por encarregados de educação e por professores, para quem o secundário é um ciclo de ensino perdido.

Duzentas lições de matemática e não sabem preencher o IRS

É a própria filha de Ana Filipa Neves, de 17 anos, que chega a casa desanimada e muitas vezes desabafa com a mãe: “ando a matar a cabeça com tantas coisas, mas, se precisar, nem sei preencher o formulário do IRS”. De acordo com esta encarregada de educação, existe uma grande pressão para que os alunos tenham boas notas nos exames nacionais, de forma a garantirem o ingresso no ensino superior. E por isso não são muitas as actividades que os preparam para se moverem com autonomia no seu quotidiano, explica Ana Filipa.

O esforço dos alunos é canalizado para as matérias que podem sair nessas provas finais, expõe a mãe, realçando que só este ano a aluna já assistiu a quase 200 lições de Matemática. E, embora a escola tenha promovido uma acção de voluntariado, com uma deslocação semanal dos alunos a uma casa de crianças institucionalizadas, só quatro estudantes do secundário (uma delas a filha de Ana Filipa), se dispuseram a abdicar de uma pequena parte do seu tempo para lerem histórias e fazerem trabalhos manuais com os mais novos. Ou não há tempo, ou não há promoção desses valores, questiona a mãe.

Ana Filipa Neves veria com bons olhos uma ligeira redução da carga horária de algumas matérias, para que outras pudessem ter lugar. Como a gestão do orçamento ou até lições de cozinha, exemplifica a encarregada de educação.

À beira de completar 18 anos e de ingressar na universidade, falta à sua filha, como a muitos alunos do ensino superior, competências para passar a residir longe dos pais durante os anos de vida universitária. Mas com poucos recursos financeiros, alguma criatividade, e sem “roubar” muito tempo de estudo, há conhecimentos básicos que podem ser transmitidos aos estudantes. “Há sempre um pai contabilista ou uma mãe que sabe cozinhar, e que podem ir à escola daalgumas dicas”, defende a encarregada de educação.

Ainda no 10.º ano, mas já igualmente pressionado para obter boas notas e assim ingressar no ensino superior, está o filho de Marina Fernandes. No entanto, “este ensino que os prepara para a faculdade já teve muito mais qualidade. Acho que lhes falta consciência cívica, por exemplo. Interessa é a turma ter uma média aceitável”, critica a encarregada de educação.

Três anos em função de duas horas de exame

 É a experiência de longos anos de ensino e o contacto com outros professores que levam Filinto Lima,um novo modelo de acesso à universidade, defende o presidente. Carlos Carvalho, professor de Informática na Escola Secundária Engenheiro Acácio Calazans Duarte, na Marinha Grande, também considera que o peso atribuído às notas dos exames nacionais vem “subverter tudo”.

 

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