Economia

Obras anunciadas animam empresas, mas tarda a sentir-se impacto efectivo

22 mar 2018 00:00

Depois de anos sem grandes projectos, estão a criar expectativa de aumento de trabalho as obras públicas anunciadas pelo Governo. Na prática, contudo, tardam ainda a sentir-se impactos efectivos

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Raquel de Sousa Silva

Várias obras públicas de monta têm sido anunciadas pelo Governo nos últimos meses, o que está a criar “animação” no sector, mas não se pode ainda falar de recuperação sustentada, alertam os gestores ouvidos pelo JORNAL DE LEIRIA. Os ciclos eleitorais continuam a ditar o ritmo da actividade das empresas que se dedicam às obras públicas.

Entre os projectos anunciados está, por exemplo, a ligação de comboio entre Évora a Elvas, apontada como a “maior obra ferroviária dos últimos 100 anos em Portugal”. Um investimento de 509 milhões de euros, cujo início está previsto para o primeiro trimestre de 2019, noticiou há uns meses a Agência Lusa.

Foi igualmente divulgado o plano de requalificação da ferrovia entre 2018 e 2022, um investimento de 125,5 milhões de euros e, mais recentemente, a modernização e criação de regadios.

Do programa, cujo investimento público ascende a 534 milhões de euros, faz parte a modernização do Aproveitamento Hidroagrícola da Lezíria Grande, obra já entregue à Oliveiras, da Batalha, resultado de uma adjudicação de 26,2 milhões de euros, com um prazo de execução de 22 meses.

“Tem havido mais concursos, mais procedimentos, mais obras”, reconhece Paulo Silva Santos, presidente da Associação Regional dos Industriais de Construção e Obras Públicas de Leiria, frisando, contudo, que muitas vezes os trabalhos demoram meses a avançar porque não há luz verde do Ministério das Finanças (cativações de despesas).

“Não há dúvida de que os indicadores económicos são bons e há animação no sector [da construção], mas é indesmentível que o País continua a ser o campeão do desinvestimento público”, diz o dirigente. Na vertente das obras públicas, “continua a haver problemas sistémicos de fundo”. Por outro lado, “uma coisa é haver trabalho, outra é as empresas estarem a ganhar dinheiro”, frisa Paulo Santos ao JORNAL DE LEIRIA.

“Há muitas empresas com uma boa carteira de obras, mas não se sabe a rentabilidade dessa carteira”, alerta. “Uma empresa até pode ganhar muitas obras, mas depois elas não arrancam, pelos mais diversos motivos, e a empresa acaba por ter pouco trabalho em curso”, acrescenta.

Rui Matos, gerente da Matos e Neves, diz que a partir de Abril do ano passado se iniciou uma “significativa melhoria” no volume de obras, promovidas sobretudo pelas autarquias, devido às eleições.

Os anúncios feitos pelo Governo dão “sinais de que vai haver trabalho”, mas os “impactos ainda não se fazem sentir na prática”. A empresa da Batalha tem actualmente em mãos um número de obras “razoável” para a sua dimensão, algumas ainda do ano passado, lançadas por autarquias.

José Carlos Rodrigues, responsável pela JJR, afirma que no ano passado as empresas terão tido as carteiras preenchidas com obras das autarquias, esperando-se para este ano obras do poder central. “Já saíram alguns concursos para os caminhos de ferro e para a rodovia, mas em concreto não há ainda muita coisa. Não estamos com excesso de trabalho nem coisa que se pareça”, frisa.

“Esperamos que as obras anunciadas venham dinamizar a economia, no final deste ano e no próximo. Demora algum tempo até que os concursos se traduzam em impactos concretos”, afirma o gestor.

A empresa do concelho de Leiria tem neste momento uma “carteira confortável” para este ano e para o próximo, o que traz alguma “tranquilidade”. O empresário frisa, no entanto, que a actividade das empresas de obras públicas “está muito ligada aos ciclos políticos”.

Por outro lado, e porque durante vários anos “não houve obras públicas”, as empresas “tiveram de emagrecer e de se reestruturar”. O sector é hoje mais pequeno, com empresas de dimensão média inferior, e porventura sem a ambição de “crescer continuamente como noutros tempos”, aponta o José Carlos Rodrigues.

A “crise profunda” sentida nos últimos anos, devido ao baixo investimento em obras públicas, levou a fusões e a encerramentos e o sector “perdeu tamanho”, aponta igualmente Arnaldo Sapinho, administrador da Moviter. As empresas que permaneceram no mercado cortaram os investimentos em equipamentos.

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