Economia
Guerra no Golfo Pérsico aumenta preço do gás e pode “partir a loiça toda”
Para a indústria cerâmica, os ataques dos EUA e Israel ao Irão meteram o relógio a contar. A fileira admite aguentar até quatro semanas sem repercutir os custos no mercado. Depois, será impossível segurar preços
Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e Cristaleira (Apicer) anunciou publicamente que, se os ataques dos EUA e de Israel ao Irão ultrapassarem um período de quatro semanas “é impossível” manter os preços de produção.
A influenciar a subida dos valores está o gás natural utilizado para manter os fornos de cozedura em funcionamento.
Neste momento, o abastecimento nacional depende sobretudo da Nigéria (51%) e dos Estados Unidos (40%), o que coloca o nosso País longe do bloqueio do Estreito de Ormuz, ponto de passagem de cerca de 20% do petróleo mundial, segundo a informação disponibilizada pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE).
Mesmo assim, alertam os empresários ouvidos pelo JORNAL DE LEIRIA, as alterações na oferta global podem espelhar-se nos preços nacionais da energia.
“Há muitas variáveis envolvidas”, reconhece Marcelo Sousa, administrador-executivo da Matcerâmica, um dos maiores fabricantes de cerâmica da região.
O empresário recorda que, em 2022, durante a invasão da Ucrânia pela Rússia, a fileira teve de lidar também com uma escalada o preço e que então, tal como agora, se falou em várias soluções para mitigar a crise.
“Em apenas dois ou três dias, vimos o preço do gás atingir um pico de quase 80%.”
Um aumento que acaba por ter impacto em Portugal, apesar de cerca de 90% dos hidrocarbonetos que transitam pelo Golfo Pérsico e Estreito de Ormuz terem como destino, maioritariamente, a Índia e a China.
Com o fornecimento suspenso, estes países são obrigados a procurar alternativas, fazendo diminuir a quantidade disponível no mercado.
Preço do gás encarece produção
“Admito que, até quatro semanas, se consiga encaixar sem transmitir ao mercado os aumentos de preço e a cadeia de valor vai encaixar o custo adicional. Ultrapassado esse tempo, é impossível que as empresas consigam manter os preços”, reconhece o vice-presidente da Apicer.
Em declarações à Lusa, Paulo Almeida alerta que o custo do gás “praticamente está a duplicar” em relação ao período anterior ao conflito, quando se registava uma tendência de descida desse valor.
Luís Ferreira, outro empresário do sector, recorda que, no dia 17 de Fevereiro, o preço do gás estava a 29,8 EUR/MWh, atingindo, no dia 9 de Março, 55,7 EUR/MWh.
Mas, no dia 10, após a sugestão de Donald Trump, presidente dos EUA, que os ataques do seu país e de Israel ao Irão “terminariam em breve”, o preço dos futuros do gás caiu mais de 13%, apesar de, no Estreito de Ormuz, o tráfego de navios metaneiros (GNL) se manter suspenso.
“Se a situação não se alterar, também a conta da luz sofrerá um aumento. É que o custo da electricidade na Europa é determinado pelo custo dos ciclos combinados indexados ao preço do gás natural.”
A Apicer defende que “sejam criadas medidas de apoio a alguma estabilidade no preço do gás natural para apoiar as empresas nesta fase” e que o Governo “deve subsidiar o consumo de gases renováveis”, ajudando, por um lado, na descarbonização, e, por outro, a deixar “de haver este impacto tão directo do gás natural”.
Paulo Almeida acrescenta que, numa terceira fase, o consumo subsidiado, vai ajudar à criação de um mercado de biometano e de hidrogénio viável.
Mas enquanto este cenário não se concretiza, no caso da Matcerâmica, Marcelo Sousa sabe que terá de suportar os custos nas encomendas antigas e deposita esperança em eventuais medidas de contenção de preços.
Uma das possibilidades passa por os G7 inundarem o mercado com parte das suas reservas e deixarem a oferta e a procura reduzirem os valores dos combustíveis.
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