DEPRESSÃO KRISTIN
“O vento roubou-me o 11 de Setembro”
Natália Guarda diz que normalidade parece ter sido varrida pelo vento
Há um mês, quando o JORNAL DE LEIRIA encontrou Natália Guarda, há uma semana que esta moradora na localidade de Alqueidão, na União de Freguesias de Boa Vista, vivia sem electricidade e sem comunicações.
Com os pais, de 76 e 82 anos, ao seu cuidado, explicava a dificuldade de dar banho à mãe acamada, “à luz de vela ou de lanterna, numa bacia com água aquecida no fogão a gás” e alertava para a existência de situações similares ou “ainda piores” espalhadas pelas aldeias.
“Falo, não por mim, que sou autónoma, nem pelos meus pais, que têm quem olhe por eles, mas pelos outros, que não têm quem lhes possa valer.”
Passadas quatro semanas, ficou o receio e uma sensação esquisita no peito, que persiste em não desaparecer, mesmo após os dias de sol e de calor primaveral da última semana, sem vento nem chuva.
Natália teme que os caprichos de uma natureza cuja previsibilidade foi profundamente alterada por outros caprichos - os do ser humano - regressem no futuro próximo. O impacto psicológico é a sua maior preocupação.
“Nós perdemos a confiança... O medo ficou e vai ficar”.
No coração de Natália, o tempo parece estagnado num estado de alerta constante. Embora a reconstrução física tenha reparado muitas das cicatrizes provocadas pela tempestade, as marcas invisíveis são profundas.
Natália diz que a comunidade está profundamente traumatizada, onde o assobiar do vento é suficiente para lançar vizinhos “em parafuso”.
Descreve o isolamento crescente, especialmente de idosos que, como o pai, agora temem aventurar-se na rua, “perdendo o convívio e a mobilidade”.
Ela própria admite estar a lidar com sintomas de Stress Pós-Traumático.
“Eu não estou bem”, diz.
Também fica ansiosa quando está sozinha e o vento começa a soprar, conta e promete que é desta que vai mesmo preparar uma “mochila de sobrevivência”, que sabe ser necessária para lidar com desastres como tremores de terra, já que Portugal está localizado em cima de uma bomba-relógio sísmica.
As palavras só lhe escapam quando a dor se torna palpável na voz, ao recordar a perda de um pinheiro-manso, plantado após o 11 de Setembro.
A árvore era um memorial pelas vítimas do derrube das torres gémeas e um símbolo para a fragilidade da vida.
“O vento roubou-me o 11 de Setembro”, lamenta, descrevendo a dor na alma, quando viu a árvore arrancada pela raiz.
“Mostrou-me a insignificância que o Homem tem diante da natureza.”
Um mês depois, a felicidade deu lugar à incerteza, pelo menos para já.
A normalidade parece ter sido varrida pelo vento, sem redes de apoio ou tecnologia que o aplaquem.