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O 'Silêncio', um filme e uma outra História

Cultura

16 Fevereiro 2017

O 'Silêncio', um filme e uma outra História

"Silêncio" O mais recente filme de Martin Scorsese passa para a tela a história dos primeiros contactos entre portugueses e o Japão.

O “silêncio do filme” está, sobretudo, no credo dos cristãos catecúmenos É um “silêncio” que está no credo dos cristãos ou em quem silencia as convicções no desespero da sobrevivência com a apostasia, mas a visão demasiado linear, posta apenas nos dramas da evangelização como exemplo do encontro com o “outro”, não deixa de nos fazer pensar, precisamente, nos entendimentos deste encontro.

Passado o Cabo da Boa Esperança, os portugueses depararam-se com duas situações inesperadas: por um lado, o Índico era uma rede comercial dominada por muçulmanos do Médio Oriente e Península Arábica.

Por outro, a partir do momento em que chegaram à Índia, continuaram a encontrar camponeses a viver na miséria como em Portugal, mas passaram a confrontar-se com classes médias e superiores que tinham um modo de vida mais requintado do que o da própria nobreza nacional.

Os problemas foram sendo resolvidos à custa da única grande vantagem dos portugueses; o uso bélico da pólvora, ancestral invenção chinesa, mas, por lá, só usada para fins rituais. Com isto, Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque foram desarticulando a rede comercial muçulmana e, ora mais à força, ora por alianças locais, aproveitando os conflitos territoriais existentes, o império foi-se alargando cada vez mais para leste.

Com chegada à China, após 1513, até ao estabelecimento em A-Ma-Gao (Macau), cerca de 1550, sucederam-se as acostagens ocasionais, o aventureirismo, as alianças com mandarins em conflito, e as tentativas frustradas de embaixadas mais formais.

Tomé Pires e Inês de Leiria?
Tomé Pires, erudito boticário e embaixador, desapareceu na China numa incursão diplomática falhada, mantendo-se a aura de mistério, não só pela extraordinária “Suma Oriental” que deixou escrita, como pelo posterior relato de Fernão Mendes Pinto, em que este afirmava ter encontrado na China uma cristã, Inês de Leiria, que se dizia filha de Tomé Pires.

Isto também acalentou a imaginação de o boticário ter nascido nesta cidade, visto o nome que teria dado à filha. Além da reacção dos naturais à intrusão com a chegada de gente estranha, homens barbados, sujos, doentes, fartos de mar e desejosos de terra, o primeiro problema era a hostilidade pela desconfiança.

Mas havia outro. Se uns, mesmo sujos e desorbitados, mas detentores de armas de fogo, eram súbditos de el Rei d’Aquém e de Além-mar, e os outros eram súbditos do Filho do Céu, senhor do Império do Meio, quem se inclinava perante quem?

Tudo isto levou a que, mesmo quando apaziguadas as relações, não só os portugueses passaram a ser popularmente chamados por alcunhas pouco lisonjeiras, como a missionação se enquadrou no Padroado Português do Oriente, braço diplomático religioso, sendo recebidos em Beijing [Pequim], apenas padres jesuítas que se apresentassem como cirurgiões, astrónomos ou pintores, tendo assim alguns sido elevados ao mandarinato e a altos cargos no Tribunal das Matemáticas.

Porém, as perseguições aconteciam, exactamente, quando se sobrepunha a desconfiança de abusos pelos estrangeiros, ou da subversão das populações.

Namban jin chegam ao Japão
Em 1543, sob o manto do Padroado Português, São Francisco Xavier e mais dois jesuítas, terão aportado ao Japão, e não foram mal recebidos. Isto levou que, por volta de 1550, barcos portugueses tocassem as costas japonesas e os primeiros problemas voltariam a ser os mesmos do que na China.

Desconfiança, conflitos de protocolo, desacerto de hábitos e de ideias e sentido de intrusão. O clássico choque de culturas que, mais uma vez, foi resolvido com a percepção de vantagens mútuas na cooperação, mas, estas estranhas figuras vindas do mar, de sul para norte, seriam os namban jin, ou “bárbaros do sul”, epíteto ignorado quando apreciamos e nos revemos nas belíssimas pinturas namban.

O certo é que os nanbam tinham a espingarda e o Japão era um mosaico de feudos em conflito permanente. A nova tecnologia, cedida ao daimio Oda Nobunaga, levou rapidamente à redução do tamanho da arma e à táctica do tiro contínuo com três filas de alturas diferentes de atiradores, chave para a unificação do país.

Aos portugueses foi, então, cedida, a baía de Nagasáqui, para centro de missionação e de comércio, e na Festa da Espingarda, em Tanegashima, onde, ainda hoje, os portugueses são lembrados. As relações frutificaram com a kurufore, ou a nau negra do trato, que trazia as porcelanas e sedas chinesas, e a prata e perfumes que, em troca, eram levados para a China, Macau e Portugal.

Os missionários tiveram campo de acção junto às paupérrimas populações rurais, ora em sossego, ora alvo de perseguições com a acusação de abusos e de subversão. Quatro japoneses recebidos na Batalha No entanto, em 1585, quatro jovens de alta estirpe japonesa seriam trazidos a Portugal e levados a Roma para conhecerem o esplendor da Cristandade, [com passagem pelo Mosteiro da Batalha].

Com a perda da independência, em 1580, e a derrota da Armada Invencível, os mares até aí dominados por Portugal e Espanha, passaram a ser palco dos apetites da Inglaterra, Holanda e França e rapidamente a Companhia Holandesa das Índias chegou ao Japão, onde o comércio implantado pelos portugueses era altamente tentador.

A diplomacia holandesa inquinou o ambiente e levou à acusação aos portugueses de tráfico de crianças e outras malfeitorias. Em 1639, estes seriam definitivamente expulsos. No ano seguinte, Macau desesperada enviaria uma “embaixada mártir”, sendo os delegados cruelmente mortos [degolados um a um] para exemplo dissuasor. A partir daí, o filme de Scorsese conta o confronto entre quem procurava manter a catequização católica e como estes eram entendidos por quem detinha o poder no Japão, enquanto os holandeses se fixavam, senhores do novo negócio.

Durante cerca de 250 anos o silêncio dos últimos missionários seria de chumbo até Portugal reatar relações com o Império do Sol.

Batalha na rota de quatro jovens japoneses - 1584/85
Alessandro Valignano era o jesuíta retratado por Martin Scorcese que, já em Macau, procurou travar a ida de novos padres para o Japão, após a expulsão de 1639. Valignano era também o “Visitador” do Japão, nomeado pelo Padroado Português do Oriente, sendo, na verdade, um embaixador notável, com três idas a terras nipónicas, a partir de 1579, onde estabeleceu bases de cooperação com as autoridades japoneses.

O Japão encontrava-se dividido em múltiplos feudos, em guerras permanentes entre eles, mas quando o daimio Oda Nobunaga percebeu como a espingarda portuguesa lhe poderia ser útil, facilitou a presença dos namban jin, acolheu calorosamente Valignano e permitiu mesmo a construção de dois seminários que viriam a ser destruídos, após a morte daquele senhor da guerra.

A unificação do Japão estava em marcha graças ao poderio militar ganho pelos homens de Nobunaga, quando passaram a usar a espingarda com algumas alterações bem mais funcionais. Após a morte deste daimio, regressou a guerra e as perseguições aos estrangeiros, mas Hideyoshi voltaria a receber os estrangeiros e a finalizar a unificação do império que o seu antecessor havia iniciado.

Estas intermitências entre a perseguição e a pacificação nas relações com os cristãos, aconteciam conforme o sentido das alianças, a ameaça de subversão das populações, ou os abusos que também aconteciam.

*Por Acácio Sousa, mestre em Estudos Luso-Asiáticos 

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