Sociedade

O Grande Plano | Carla de Sousa

14 mar 2018 00:00

O desafio de escolher uma – e só uma – fotografia que seja quase, quase a nossa preferida entre todas as demais, creio que deixa qualquer fotógrafo num dilema de criação.

Jacinto Silva Duro

Afinal, as “nossas” fotografias são, entre outras coisas, aquilo que o nosso olhar, com a mediação de uma câmara nas mãos, captou. E se são o produto da nossa atenção e cuidado, acabam por reflectir muito do que nós somos/fomos, mais do que, às vezes, suspeitamos.

Como escolher entre os escombros do que fomos, do que vimos, do que sentimos? Não tenho, no entanto, dúvidas que esta fotografia, está entre as melhores que, alguma vez, terei oportunidade de fazer.

De um sopro, alinham-se texturas, grafismos, escala humana, fundo etéreo e cores, qual paradigma de anunciação do verão. Estávamos a poucos dias do início da estação balnear, no Sítio da Nazaré, seria pouco depois do meio dia, o sol banhava a praia, as estacas perfilavam-se coloridas e rebatiam as suas sombras no areal, um homem e uma mulher avançam em direcção ao mar e, como pioneiros veraneantes, dão escala e realidade à imagem.

Poderia ser um desenho, um óleo, uma aguarela, mas não: nasceu do meu olhar e daquele momento quase mágico que, às vezes, poucas, nos faz transcender da realidade ao sonho. Quando olho esta fotografia, revejo-me, nas cores, nas linhas, na dimensão gráfica das mesmas, na poesia que é fazer o percurso em busca do mar e do verão: é para lá que todos caminhamos nos nossos dias: rumo ao mar que não se vê, rumo ao verão que os nossos corações acalentam.

Chamei-lhe summer is in my heart , em tributo a Clarice Lispector, corria o ano de 2014. E se esta for a fotografia de uma vida, poderei morrer feliz e de coração estival.

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