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Mimi, eu sou o teu pai

2 fev 2017 00:00

Com um ano, ela nunca me tinha visto em formato puto. Eu ainda pensei que ela fosse lá pelo cheiro ou pela voz, mas esqueçam!

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Para quem a minha cara só é conhecida pela rádio quero comunicar que normalmente uso barba, uso barba porque gosto de estar no último grito a soltar um falsete do além e porque sonho aparecer nas revistas de moda a fazer de gajo tonificado com um olhar meigo enquanto racho lenha com uma camisa de flanela. Acham?!

Uso barba porque é uma dose cortá-la todos os dias. Não é vida para ninguém. Gasta-se uma pequena fortuna em lâminas e se fazemos gazeta dois ou três dias parecemos logo um vilão da BD com a fronha naquele tom verde-escuro suave como uma lixa 14. Para além disso, com barba, numa só jogada aproximo o beiço da ponta do nariz e oiço a minha avó dizer “Oh menino, eras tão jeitoso quando eras pequenino”. Sim, a minha avó gosta de nos mimar, é sempre de “estás tão gordo” para cima.

De vez em quando acordo em sobressalto sem saber se matei mesmo alguém ou se foi só um sonho, outras vezes acordo a pensar: Porra, tenho de mudar! E, às vezes mudar é cortar a barba. No outro dia, depois de pôr a pequenita de um ano a dormir a sesta, peguei na rebarbadora, pus os óculos de soldar, fui buscar o creme hidratante com efeito regenerador de aloé vera sem glúten e pus-me a cortar a fauna carpete que escondia esta escultura óssea a que chamam tromba.

A Rita aproveitou a folga e foi derreter o nosso orçamento em sapatos, actividade a que chamou de compras. Tudo a fluir, o dia corria bem. Depois de ver a adolescência reflectida no espelho, incentivei a minha masculinidade com frases carregadinhas de testosterona e auto ajuda, coisas do tipo: Estás lindo e suave, seu carinha laroca!

Estava eu com o Ninja na sala a dançar como dançam a secções de metais daquelas bandas cheias de groove e soul quando a Princesa decide acordar do seu sono de beleza e começa a gritar: Pai! Pai! Sim, é fixe ela chamar o pai primeiro. O problema é que o pai dela já tinha sido aspirado do chão da casa de banho.

Com um ano, ela nunca me tinha visto em formato puto. Eu ainda pensei que ela fosse lá pelo cheiro ou pela voz, mas esqueçam! Quando eu chego ao quarto, de barba feita, haviam de ver a cara de pânico da miúda. Nem imagino o que se passou naquela cabeça de amendoim!

Quem é este gajo? O que é que este gajo fez ao meu pai? O meu pai foi fundido com um rapaz de nariz comprido e buraquinho no queixo! Alguém que me acuda por favor! Por entre o soluçar e o berreiro dela, o pânico dos dois, dei por mim num sitio onde nunca tinha pensado estar, no lado negro da força e a dizer: “Mimi, eu sou o teu pai!”

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