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Lentriscas em Castelo | João Gordo: o caminho do prazer

30 ago 2026 10:00

Ao longo de mais de quatro décadas, tornou-se uma referência de Leiria não por seguir tendências ou procurar reinventar-se constantemente, mas por uma razão mais simples: nunca perdeu de vista o prazer de quem se senta à mesa

O Nuno cresceu entre a sala e a cozinha, entre clientes habituais e marisco acabado de chegar
O Nuno cresceu entre a sala e a cozinha, entre clientes habituais e marisco acabado de chegar
Ricardo Graça
A casa abriu portas em 1984 pelas mãos de João Gordo e Maria de Lurdes
A casa abriu portas em 1984 pelas mãos de João Gordo e Maria de Lurdes
Ricardo Graça
Comida capaz de nos fazer geinuinamente felizes
Comida capaz de nos fazer geinuinamente felizes
Ricardo Graça
Mais do que experiência ou conhecimento técnico, existe sensibilidade
Mais do que experiência ou conhecimento técnico, existe sensibilidade
Ricardo Graça
Continua a ocupar um lugar especial na restauração leiriense
Continua a ocupar um lugar especial na restauração leiriense
Ricardo Graça
No final chegaram a tradicional brisa do Lis e um mascarpone fresco com crumble
No final chegaram a tradicional brisa do Lis e um mascarpone fresco com crumble
Ricardo Graça

O João Gordo faz parte daquele pequeno grupo de restaurantes que acabam por pertencer à cidade. Ao longo de mais de quatro décadas, tornou-se uma referência de Leiria não por seguir tendências ou procurar reinventar-se constantemente, mas por uma razão mais simples: nunca perdeu de vista o prazer de quem se senta à mesa.

A casa abriu portas em 1984 pelas mãos de João Gordo e Maria de Lurdes. Como tantas histórias bem-sucedidas da restauração portuguesa, começou sem discursos elaborados nem ambições de grandeza. Havia apenas a vontade de receber bem, servir com consistência e respeitar o produto.

Em 1989, com a morte de Maria de Lurdes, a história da casa entrou numa nova fase. O Nuno cresceu dentro desse processo. Cresceu entre a sala e a cozinha, entre clientes habituais e marisco acabado de chegar, absorvendo os ritmos de uma casa que fazia parte da cidade e da sua própria vida. Talvez por isso nunca tenha sentido necessidade de transformar o João Gordo noutra coisa. O seu percurso passou por compreender aquilo que já lá estava e levá-lo mais longe.

Quando a matéria-prima é boa

A nossa refeição começou com uma excelente alheira, bem tostada por fora e cremosa no interior, daquelas que lembram porque razão Trás-os-Montes continua a ser uma das grandes reservas gastronómicas do país. Seguiram-se camarão, percebes e marisco fresco, servidos sem artifícios e com a confiança de quem sabe que o produto não precisa de esconder-se atrás de nada. Houve também presunto de corte fino, onde a cura, a gordura e o sal apareciam em equilíbrio, confirmando uma ideia que atravessa toda a refeição: quando a matéria-prima é boa, a inteligência está muitas vezes em não complicar.

Fotografias de Ricardo Graça

O momento mais marcante chegou com um carpaccio de vaca maturada, caviar e ovos rotos de carabineiro. A Rita termina o prato na mesa, utilizando os sucos do carabineiro para envolver os ovos rotos e unir todos os elementos. O resultado é surpreendentemente harmonioso. A riqueza da gema, a profundidade do carabineiro, a intensidade da carne maturada e a precisão salina do caviar encontram um equilíbrio raro. Foi um dos pratos mais memoráveis da refeição e uma demonstração clara de como ingredientes intensos podem coexistir quando existe critério na sua construção.

Seguiu-se um arroz de santola servido na própria santola, gratinado e cheio de sabor. É um prato rico e profundamente satisfatório, equilibrado por uma salada fresca cortada no momento, que introduz o contraste necessário sem lhe retirar carácter.

No final chegaram a tradicional brisa do Lis e um mascarpone fresco com crumble. Duas sobremesas de perfis distintos, ambas bem executadas, a encerrar o almoço com a mesma naturalidade que marcou toda a refeição.

Mais do que experiência 

Ao longo da mesa percebe-se que existe aqui mais do que experiência ou conhecimento técnico. Existe sensibilidade. Nuno Lopes possui uma qualidade rara: uma compreensão intuitiva do sabor. Percebe o produto, respeita-o e trabalha-o sem o aprisionar a fórmulas ou modas passageiras. Vai afinando, experimentando e corrigindo, sempre com o mesmo objectivo. Não impressionar. Dar prazer.

Talvez seja essa a razão pela qual tantos pratos permanecem na memória muito depois da refeição terminar. E talvez seja também por isso que o João Gordo continua a ocupar um lugar especial na restauração leiriense. Não apenas pela sua história, mas porque continua a oferecer uma coisa cada vez mais rara: comida capaz de nos fazer genuinamente felizes.

João Gordo
Rua D. Carlos I, 29
Leiria
244 881 483

Artigo publicado originalmente na edição impressa 2186 do JORNAL DE LEIRIA, de 4 de Junho de 2026