Editorial

Como não ser atropelado pelo novo Plano de Mobilidade de Leiria

27 ago 2026 08:22

Não trata de propor paliativos, pelo contrário, sugere uma revolução, com mais espaço para andar a pé e de bicicleta, melhores transportes públicos e mais áreas verdes

Mesmo sem ler uma linha do que está em discussão pública até ao próximo dia 15 de Setembro, quem vive ou trabalha em Leiria, provavelmente, concorda que faz falta um plano para meter ordem no trânsito e no estacionamento. Este chega durante as férias de Verão (porquê?) e chega com dez anos de atraso, no mínimo.

No concelho de Leiria, 80% das deslocações baseiam-se no automóvel. Agora, há o objectivo de reduzir a percentagem para 58% até 2035.

O primeiro ponto a reter sobre o documento é o título: Plano de Mobilidade Urbana Sustentável. Não trata de propor paliativos, pelo contrário, sugere uma revolução, com mais espaço para andar a pé e de bicicleta, melhores transportes públicos e mais áreas verdes. Ideias de que dificilmente alguém discorda. Coloca as pessoas no topo das políticas e defende zonas carbono zero, superquarteirões e distâncias de 15 minutos entre casa, trabalho, escola, comércio e serviços. É uma nova cultura e uma nova cidade – envolvida por um parque circular ligado aos rios Lis e Lena. E com Lisboa a 40 minutos, se o comboio de alta velocidade se concretizar.

O choque com a realidade (na versão actual do PMUS) é inevitável. A estratégia tem pela frente um concelho em que grande parte – a maior parte? – da população reside nas freguesias e percorre quilómetros diariamente, mas também uma cidade enfiada entre colinas e cercada por autoestradas e estradas nacionais. As ligações com Marinha Grande, Batalha e Pombal já estão a rebentar pelas costuras.

A visão do PMUS contempla estacionamento dissuasor na periferia, ruas com velocidade máxima de 30 quilómetros por hora, a reformulação da rede viária, corredores para autocarros e metro ligeiro de superfície, entre 74 propostas.

No centro histórico, surge o princípio da não-permeabilidade ao tráfego de atravessamento, ou seja, o centro histórico deixa de ser atalho e percurso para carros, salvo excepções. O castelo, o jardim Luís de Camões e a Câmara Municipal são outras zonas predominantemente pedonais no PMUS.

É nestes momentos que se aplica o lugar comum: a Democracia implica mais do que votar de quatro em quatro anos. A consulta até 15 de Setembro permite que todos possam apresentar contributos. Para que não sejam atropelados quando o Plano de Mobilidade vier a circular nas estradas de Leiria.