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Leiria vai ouvir Chico Bernardes, o caçula com alma velha

28 jan 2020 12:07

Músico brasileiro, irmão de Tim Bernardes, do trio O Terno, também actua em Alcobaça

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Concertos de Leiria e Alcobaça abrem a digressão em Portugal
Zoé Passos

Tem 20 anos e pertente à geração pós-millennials, mas diz que quanto mais a tecnologia do século XXI “vem vindo”, mais ele procura “uma maneira natural” de ordenar os sons. A primeira internacionalização de Chico Bernardes acontece em Leiria, na próxima quinta-feira, 30 de Janeiro, no arranque de uma digressão com 10 datas. Só voz e violão. É uma semana imperdível: na mesma noite os Mão Morta actuam no Teatro José Lúcio da Silva e na sexta-feira Filipe Sambado está no Texas Bar, em Barreiros, Amor, enquanto Fado Bicha e Labaq animam o festival Clap Your Hands Say F3st no Teatro Miguel Franco.



Chico Bernardes, cantor autor nascido no Brasil, chega de São Paulo, onde vive, estuda e compõe, para mostrar o primeiro trabalho de longa duração, lançado há meio ano, que do outro lado do Atlântico captou a atenção de meios de referência como O Estadão e o portal G1 da rede Globo. Além da música, há uma questão genética que atrai os holofotes: Chico é filho de Maurício Pereira – figura da cena independente brasileira – e irmão de Tim Bernardes, vocalista do colectivo O Terno, que também já actuou em Leiria, pela mão da mesma promotora que agora traz o caçula da família a Portugal – a Ya Ya Yeah, com raízes no eixo Alcobaça-Nazaré.

Dylan e Bolsonaro

O ambiente “muito aberto à música”, lá em casa, sempre com instrumentos por perto, ajuda a explicar o fascínio pelos clássicos do folk norte-americano e por artistas como Joan Baez, Bob Dylan e Joni Mitchell, que estão nas entrelinhas do álbum Chico Bernardes, disponível nas plataformas Bandcamp e Spotify. Quase não há distorção nem electrónica, o destaque é todo para a letra que lança âncora nas cordas da guitarra e as canções parecem escritas por alguém com mais idade. Sensíveis, elegantes, contidas, nem tristes nem eufóricas. “Muitos dizem que tenho uma alma velha. Sempre viram o que eu dizia como vindo da boca de uma alma mais velha”, explica. “A vida não é um conto de fadas, mas também não é uma tragédia”.

O músico de São Paulo chega ao primeiro degrau da carreira no momento em que a pátria da bossa nova sente os efeitos de um choque ideológico de consequências imprevisíveis. “O Brasil se encontra muito dividido”, reconhece, não só “entre esquerda e direita, pessoas pró-Bolsonaro e contra Bolsonaro”, mas, também, por causa “da religião” assumida em determinados sectores “quase como seita”. Na polémica Porta dos Fundos, provocada pelo especial de Natal com Cristo gay, Chico Bernardes acredita que o colectivo de humoristas está a desafiar os limites da censura para denunciar a situação no país. “A liberdade de expressão está sendo ameaçada no Brasil com esse governo. É uma tentativa, e uma maneira muito cómica, de ver até onde a liberdade de expressão resiste no Brasil”.

Novo caminho

Nos concertos de Leiria (Atlas Hostel, 30 de Janeiro) e Alcobaça (Ossos do Ofício, 31 de Janeiro), no entanto, a política está fora do alinhamento. Os temas onde se misturam a verdade e a ficção falam de afectos, amores não concretizados, sentimentos, pessoas e episódios da vida do compositor. Vago, a terceira faixa do disco, é a mais antiga, data de 2016. “Também tem músicas que sou eu procurando o meu caminho e algumas que contam histórias que vêm de um lado meu não tão pessoal”. É o caso de Um Astronauta, com vídeo no YouTube, sobre alguém à deriva, a ver de longe o filho crescer: “Um astronauta, de bom coração, demorou muito para reconhecer, que as estrelas, que tanto estudou, brilham bem menos do que as que deixou, em seu planeta”.

Leiria recebe Chico Bernardes na viragem para uma nova estrada, entre o primeiro e o segundo registo. Interessado em perceber como escrever “de uma maneira pessoal e também impessoal, para que as pessoas se identifiquem”. Porque “a arte é uma maneira de manifestar o que a gente está sentindo”, conclui. Está no quarto ano do curso superior de música, para trás fica o gosto pela psicologia e pelo jornalismo. Em Portugal, além de Leiria e Alcobaça, vai apresentar-se ao vivo em Sabrosa, Guimarães, Lisboa, Aveiro, Porto, Barcelos, Ovar e Coimbra, numa tour que se prolonga até 9 de Fevereiro. A primeira de sempre. Ao telefone de São Paulo, conta que o que mais lhe interessa é manter um processo “bastante artesanal e caseiro”, em contraponto com a voragem tecnológica do capitalismo. E as novas canções, a editar provavelmente só em 2021, estão mesmo a ser gravadas em casa, no cenário mais intimista.

Ya Ya Yeah com bandas de 15 países

Na primeira metade do ano, há algo de novo a acontecer: a Ya Ya Yeah, pela primeira vez, assegura uma digressão completa na Europa de uma banda norte-americana. Os Monarch chegam da Califórnia e têm novo LP. O mesmo é válido para os Green Milk From The Planet Orange – é a primeira vez que a Ya Ya Yeah marca a tour inteira no velho continente de uma banda do Japão. Outro destaque no primeiro semestre de 2020 são os concertos do colectivo nacional The Black Wizards fora de Portugal. A promotora e editora do eixo Alcobaça-Nazaré trabalha actualmente com músicos de 15 países, incluindo origens tão distantes como a Austrália, Israel ou Ucrânia. Mas também de França, Polónia, Reino Unido, Brasil, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Holanda e Noruega, além de Portugal, Estados Unidos e Japão, já referidos. São 37 bandas na turma Ya Ya Yeah, que faz o encontro entre quem quer tocar ao vivo e quem tem palco para preencher com concertos (tanto salas como festivais). Outra parte do trabalho da Ya Ya Yeah prende-se com edições especiais limitadas no formato cassete: Astrodome (Portugal), Slift (França), Asimov (Portugal), Mr. Gallini (Portugal), Glória (França) e Fun Fun Funeral (França) estão neste catálogo.

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